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Transgressor
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    Eis aqui mais um título simplesmente sensacional. E não poderia ser diferente, não poderia ser melhor. O livro de “despedida” de Buk é editado em forma de diário, são recortes selecionados pelo próprio Bukowski entre 91 e 93 – Buk morreu em 94.

    E o que encontramos nesses diários de um Buk já bastante velho, com problemas de saúde e mais experiente do que nunca, o que encontramos?

    Encontramos Buk falando sobre as pessoas, sobre a escrita, sobre cavalos, sobre a morte, sobre arte, tecnologia, enfim.... Buk selecionou recortes dos mais variados temas, mas não espere tratados sobre nenhum desses assuntos, Buk provavelmente acabaria achando muito chato escrever um tratado sobre qualquer um desses temas – exceto sobre cavalos, é exceto sobre cavalos.

    Sobre as pessoas, Buk não tinha lá grandes esperanças. A velhice veio, e depois de conhecer uma porrada de pessoas, e Buk não nutria nenhum desejo por tê-las por perto, inclusive as evitava. As pessoas são cansativas, insossas e entediantes. Buk tinha os cavalos e a bebida, para que precisava de pessoas? Obviamente Linda não entrava nesse grupo, porque já existira mulher mais compreensiva? Por incrível que pareça, Buk adorou ter um computador. Ele conseguia escrever muito mais, com facilidade para editar e corrigir. Seus pensamentos podiam fluir e o computador conseguia acompanhar.

    Odiava quase toda a música, mas amava música clássica. Não gostava dos cinemas, achava tudo previsível demais. Não gostava do que lia, porque achava a maioria dos escritores um bando de covardes. Não gostava de Tolstói, nem de Shakespeare.

    Mas, quero falar de O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do Navio, porque esse livro já se tornou importantíssimo para mim. Eu já li alguns livros sobre teoria literária, técnicas de escrita, mecanismos de storytelling, etc.... Mas, o que Buk nos dá nesse livro é diferente, é intenso, é apaixonado, é cru.

    Ele fala da escrita de forma tão, tão, tão apaixonada e simples, quero dizer, esse livro é quase como um tratado de pau duro sobre a escrita, saca? Entende o que quero dizer? Buk não tinha meias palavras, e com seu sarcasmo, ceticismo e humor tradicionais, ele passa pelo ofício de escrever, pela relação do escritor com o texto, com o público e consigo mesmo.

    Vou cita-lo, ao invés de falar sobre suas palavras, porque acho que isso os faria compreender melhor a importância desse livro para um aspirante a escritor, e também para um leito apaixonado que tem a experiência engrandecida, ao se dar de frente com um escritor tão apaixonado pelas próprias palavras, pelo próprio texto, porque quando um escritor pensa no leitor, nunca diz o que realmente quer dizer, e logo seu texto perde a razão de ser, porque o escritor escreve e o leito lê.


    “…Um escritor não deve nada, exceto ao seu texto. Ele não deve nada para o leitor, exceto a disponibilidade da página impressa…”

    “.... Escrever é quando voo, escrever é quando começo incêndios. Escrever é quando tiro a morte do meu bolso esquerdo, atiro-a contra a parede e a pego de volta quando rebate…”

    PUTA QUE PARIU, olha isso!

    “Cada nova linha é um começo e não tem nada a ver com as linhas que a precederam. Todos começamos como novos, a cada vez. E, é claro, isto não tem nada de sagrado. O Mundo pode viver muito mais facilmente sem livros do que sem encanamentos. E alguns lugares do mundo quase não têm nenhum dos dois. É claro, preferia viver sem encanamento, mas preciso dele porque estou doente.

    Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos do pé rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente a frente com a Morte. Você vai morrer como um lutador, será reverenciado no interno. A sorte da palavra. Vá com ela, mande-a. Seja o palhaço nas trevas. É engraçado. É engraçado. Mais uma linha...”

    Percebe?

    Livro de cabeceira.

    Obrigado Buk.
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    Crônica de um amor louco, Ereções, Ejaculações e exibicionismos – Parte 1.

    Porra... Eu amo esse título! “Crônica de um amor louco”, porra.... Olha pra isso, quero dizer, veja o quão belo é o título per si, a poesia desse arranjo. O título, aliado ao subtítulo - Ereções, Ejaculações, Exibicionismos -, representam com uma elegância típica do grande Bukowski, o assunto, a temática, enfim, representar o conteúdo desse belíssimo livro.

    É isso o que você vai encontrar nessas 30 ou 31 crônicas. Amores intensos, insanos, imprevisíveis. Amores de uma noite, de uma semana, de uma foda. Amores perigosos, problemáticos e loucos.

    “A mulher mais linda da cidade”, por exemplo, é a crônica que inaugura o livro, e puta merda. Não poderíamos começar melhor. A crônica é simplesmente BRILHANTE, inclusive foi adaptada para o cinema em 81 por Marco Ferreri. A crônica conta a história de Cass, uma mestiça índia que passou a adolescência em um convento, e quando saiu se juntou as suas outras 4 irmãs. Cass, era a mais bonita dentre as irmãs e a mais bela moça da cidade. Sua beleza no auge de seus 20 anos, era simplesmente estonteante. Era exótica. Única.

    A crônica é extremamente humana, do inicio ao fim.

    Primeiro nós lemos Cass, revoltada contra si mesma por ser bela demais, triste com os outros por se aproximarem dela por sua beleza - e somente por isso -, lemos Cass se mutilando para acabar com a beleza que a impede de ser reconhecida por quem é de fato, lemos um Buk preocupado, mas não tanto, e por fim lemos um Buk derrotado, saindo do bar em que normalmente encontrava Cass, após ser avisado de que ela cometera suicídio há uma semana.

    “Bebi até a hora de fechar. Cass a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele "não". Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que por a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos. Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:
     - MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!
    A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia mais fazer nada.”

    É lindo ver como em poucas páginas, Buk explode em sentimentos, emoções, conflitos e arrependimentos. É o que eu costumo dizer para as pessoas quando nos dispomos a falar sobre Bukoswki:
    Ele tinha uma sensibilidade que fica escondida nas palavras rudes, mas ela está lá o tempo todo, por trás de cada cu, buceta, pau, piça. Buk era imenso em sentimentos, ele transbordava, e foda-se que parece clichê.

    Todas as crônicas possuem a análise particular de Buk sobre o mundo, sobre a sociedade, e principalmente sobre as pessoas. É um dom tão particular e tão belo, quero dizer, para um escritor, ler as pessoas da forma como Buk lia, porra, isso é lindo e enlouquecedor, tudo ao mesmo tempo.

    “ O espremedor de culhões “ é uma crítica social belíssima e muito visual. É a história de uma empresa, uma agência de empregos. Existem dezenas de homens presos em ganchos, tal como num açougue. Quando a agência recebe um telefonema solicitando um funcionário para o serviço X, eles correm  e passam um daqueles homens no espremedor, até que o homem fique sem os culhões.
    O resultado de 4 ou 5 voltas – para os sujeitos mais durões – era perfeito. O homem que tinha convicções, posições e certezas antes de entrar na máquina, saía absolutamente renovado, pronto para a sociedade, pronto para ser o funcionário perfeito.
    “- Herman? - chama Bagley.
    - Sim, chefe.
    - O que é que está sentindo? Ou melhor, como se sente?
    - Não sinto absolutamente nada chefe.
    - Você gosta de tiras?
    - Tiras não, chefe - polícias. Eles são vitimas da nossa maldade, embora
    às vezes nos protejam atirando, prendendo, espancando e multando a
    gente. Não existe essa história de que não há tira que preste aliás,
    polícia, desculpe. Já imaginou se não houvesse polícia? A gente teria
    que impor a lei com as nossas próprias mãos.
    - E aí, o que ia acontecer?
    - Nunca parei pra pensar, chefe.
    - Ótimo. Acredita em Deus?
    - Ah, claro que sim chefe. Em Deus, Pátria, Família, Tradição. E no
    trabalho honesto.
    - Puta que pariu!
    - Como disse chefe?
    - Não. Nada. Agora, escuta aqui, você gosta de fazer serão?
    - Ah, claro que sim, chefe! Gostaria de trabalhar 7 dias por semana, se
    possível. E de ter 2 empregos se pudesse.
    - Por quê?
    - Por causa do dinheiro, chefe. Pra comprar TV a cores, carro novo, dar
    entrada pra casa própria, pijama de seda, 2 cachorros, barbeador
    elétrico, seguro de vida, assistência médica, ah, tudo quanto é tipo de
    seguro, educação escolar para os meus filhos, se eu tiver, porta
    automática na garagem, roupas finas, sapatos de 45 dólares, câmeras,
    relógio de pulso, anéis, lavadora automática, geladeira, poltronas e
    camas novas, forração de carpete em todas as peças, donativos pra
    igreja, aquecimento central e...
    - Tá legal. Chega. Agora, quando é que pretende usar todos esses
    troços?
    - Não estou entendendo, chefe.
    - Quero dizer, se você trabalhar dia e noite ainda fizer serão, que tempo
    te sobra pra aproveitar todo esse luxo?
    - Ah, esse dia há de chegar, chefe, ele há de chegar!
    - E não acha que teus filhos um dia hão de crescer e julgar que você foi
    um trouxa?
    - Depois de ter me esfolado vivo por causa deles, chefe? Claro que não!
    - Maravilha. Agora, só mais algumas perguntas.
    - Pois não, chefe.
    - Não acha que toda essa escravidão permanente é prejudicial pra saúde
    e pro espírito, pra alma, se quiser...?
    - Ah, pô, se eu não ficasse trabalhando o tempo todo, ia acabar sentado
    por aí, bebendo, pintando quadros a óleo, fodendo, indo ao circo ou no
    parque pra ver os patos. Coisas desse gênero.
    - Não acha que ficar sentado no parque, olhando para os patos, pode
    ser muito agradável?
    - Mas desse jeito eu não ganho dinheiro, chefe.
    - Tá legal, vá se foder.
    - O que, chefe?
    - Não, nada. Já sei de tudo o que precisava. OK, Dan, este aqui tá no
    ponto. Parabéns. Dá o contrato, pega a assinatura dele, a letra é tão
    miúda que nem vai conseguir ler. Acha que somos gente boa. Manda
    correndo lá no endereço. O pessoal vai ficar encantado. Há meses que não arrumo melhor contador.”

    Não é brilhante?

    Crônica de um amor louco, caminha por entre hotéis baratos e sujos pelo Texas, a dias em que Buk mora de favor com uma senhora gorda, ou com um grande poeta francês. Caminha por entre os hipódromos, por entre apostas e dicas, por entre derrotas e lucros. Caminha por brigas, paixões, problemas com a polícia, sexo selvagem, hétero e homossexual. Buk explora uma série imensa de possibilidades, narrando aventuras que viveu, ou que outras pessoas viveram.

    Em “O diabo em forma de gente”, temos uma crônica que narra um fragmento da vida de Martin Blanchard. Um homem de 45 anos, que já havia se casado duas vezes, divorciado, e tinha acabado de perder seu 27º emprego, por puro desinteresse.

    O homem fica pela janela, observando o movimento e vê três criancinhas brincando. Dois garotos e uma garotinha, que devia ter uns 6, 7, 8 ou 9 anos, algo assim. Ela vestia roupinhas de criança, inocente, despreocupada. Mas, Martin Blanchard ficou excitado ao vê-la daquela forma, com sainha e babadinhos.

    O homem embriagado saí de casa e vai até a garagem onde eles brincavam sozinhos. O resto você já pode deduzir. E sim! É tão ruim quanto você está pensando que é. A crônica é aterradora, mas tem o seu valor assim como todas as outras. Quero dizer, Buk nos faz pensar em uma caralhada de coisas – mesmo que não fosse sua intenção -, pensamos sobre o amor, sobre a beleza, sobre o trabalho, sobre Deus. E esse conto nos lança no mais profundo abismo, nos coloca diante de uma das situações mais repugnantes em que se é possível pensar, e é isso.

    Crônica de um amor louco, é riqueza. É beleza. É como mergulhar num oceano de sentimentos, onde ondas de reflexão caem sobre você e quando você se ergue elas tornam a cair sobre você. O livro tem doses certeiras daquele bom e velho humor, tem momentos de emoção e tem momentos de choque. Buk te joga de lá pra cá e depois de cá pra lá e essa experiência, digo, essa experiência de ser tomado pelas mãos desse homem.... Sim. Essa experiência é marcante e única. E o melhor de tudo é saber que ele não escreveu tudo isso para todas as pessoas, ele escreveu por que precisava escrever, e com certeza sabia que seria odiado por uns e amado por outros.

    Eu o imagino a pensar sobre os que o odeiam, com aquela mente bem-humorada e ácida. Talvez dizendo: Nunca foi para vocês.
    Mas isso é só a minha imaginação. Fiquemos portanto, com suas palavras e seus textos. Mergulhemos, pois, neste universo cheio de amor, sexo, sujeira e sensibilidade.

    Bukowski é grandioso, e Crônica de Amor louco é uma obra digna de seu autor.
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    A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, óculos e close-upJúlio Costa | Transgressor

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