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Transgressor
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    Clube da Luta é uma adptação do livro de mesmo nome, escrito por Chuck Palahniuk. O filme lançado originalmente em 1999 teve um começo bem complicado, porque foi entendido pelo público como uma glorificação gratuita da violência, como um convite às armas contra o sistema e no Brasil, inclusive, tivemos um atentado terrível em uma sessão do filme (Um estudante de medicina metralhou várias pessoas). Uma prova de que as pessoas definitivamente não estão preparadas para qualquer tipo de confronto e é justamente isso que Clube da Luta oferece, um confronto.

    David Fincher e seu estilo controlador por trás das câmeras, talvez nunca tenha se revelado tão importante em toda sua filmografia como se revela em Clube da Luta. O filme, nas mãos de outras pessoas, poderia ter descambado para a violência gratuita, mas a adaptação foi feita com tanto cuidado − desde o roteiro feito por Jim Uhls sob a supervisão do autor, até a direção inventiva de Fincher −, que eliminando as compreensões perigosas, oferece uma série de questionamentos e acima disso, um retrato impressionante do homem moderno.

    O protagonista está com seus 30 anos. Tem um emprego estável e o apartamento que qualquer jovem gostaria de ter. Tem o mesmo apreço pelo consumo que qualquer outra pessoa. Mas, apesar de tudo ele tem insônia e passa noites seguidas em claro. -

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    O protagonista da obra se encontra em um jogo de regras pré-estabelecidas, no qual ele é apenas um peão em cuja mente foi plantada a ideia de que poderia se tornar um rei, através da repetição da rotina em um trabalho que pague bem, à compra de artigos que tragam comodidade e a perseguição de sonhos que são comuns a todos, como a construção familiar e o estoque de riqueza.

    A raiva e as manifestações violentas que surgem na obra por meio da reunião de alguns homens, surgem justamente após a compreensão de que essas ideias implantadas são absolutamente mentirosas, no sentido de que o peão não se tornará Rei, não terá riquezas para estocar, nem fama para gozar ou qualquer outra coisa do tipo. É insatisfação, é enxergar que durante 30 anos foi guiado por um caminho que não o levará para os livros de história. A angustia de acompanhar a sua própria transformação, de você mesmo em seu pai, de notar que as vias estão se estreitando e o peão só tem um caminho para seguir.

    Clube da Luta manifesta justamente isso. O descobrir-se no jogo, a compreensão das regras e das mentiras, a raiva que se mistura ao medo e promove o nascimento do Clube que liberta os homens dessas amarras, através de socos e pontapés – que não são apenas socos e pontapés, mas são atos contínuos de libertação e rebeldia, é a punição pela passividade. O peão cruza o tabuleiro quebrando as regras e pervertendo o curso do jogo. Auto aperfeiçoamento é masturbação, agora autodestruição....

    Quando Tyler diz: Você não é especial¸ ele está acendendo o pavio de toda uma geração desesperada para sair do caminho que estava traçando. É uma provocação que se encaixa como a peça que faltava no quebra-cabeça que aqueles homens estavam resolvendo e que revelava a imagem completa de um homem vazio.

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    Clube da Luta é um filme de 1999. Já fiz um vídeo sobre como a obra me influenciou, então qual a necessidade de escrever mais um texto abordando essas questões?

    Nesse momento, tenho diante de mim – nessa ordem −, teclado, xícara, mouse, monitor, quadro negro de cortiça e por fim a parede. Não sei se você consegue visualizar, mas esse quadro negro está absolutamente ao lado do meu monitor e nesse quadro, além de alguns lembretes sobre escrita como “Não use tantos verbos de pensamento (obrigado Chuck) ” ou “Não use tantos ques”, há também um pedaço rasgado de sulfite escrito Você não é especial porra, Você não é especial porra. Você não é especial porra. Você não é especial porra. Essa frase repetida quatro vezes. É um lembrete e outro dia bati os olhos nesse pedaço de papel e me coloquei a pensar acerca da obra, de sua mensagem e do porquê de ter posto esse lembrete bem diante dos meus olhos.

    A resposta é muito simples, na verdade. Em algum momento do passado eu tirei o pó da minha máquina de escrever, bati as teclas repetidas vezes e prendi essa frase no meu quadro negro, porque eu preciso ser lembrado diariamente de como nos manipulam, de como fazem de nós Hamsters correndo numa rodinha. Dizem que se corrermos muito, alcançaremos, mas estamos presos em uma rodinha dentro de uma gaiola e nós correremos para lugar nenhum.

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    Você não é especial.
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    Não há nada mais admirável em uma obra ou pessoa, que sua capacidade de enxergar a realidade por trás das máscaras, e Raymond Chandler e o Noir, sem dúvida alguma conseguem revelar nossa verdadeira face.

    Essa aparente dicotomia que costumo expor em muitos dos meus textos e pensamentos, só é uma dicotomia porque nós realmente não estamos acostumados à uma visão de mundo que enxerga o homem de maneira tão objetiva.

    Comumente, buscamos enxergar aspectos subjetivos e até etéreos para justificar, perdoar e confiar em determinadas pessoas. Se alguém te faz mal, não o faz porque é mal, o faz porque estava num dia ruim, ou porque aconteceu algo que a irritou. Você vê? Nós sempre tentamos encontrar formas de diminuir a culpa dos outros por suas ações mal-intencionadas, bem como esperamos que nossas ações sejam julgadas pelo mesmo prisma, porque até parece que nós somos pessoas ruins, não é mesmo?

    Quando eu falei das máscaras no primeiro parágrafo, falo justamente dessa visão que construímos e colocamos sobre os outros e dá visão que temos de nós mesmos. Máscaras que colocamos ante as faces podres dos que nos cercam. Máscaras que colocamos ante as nossas faces putrefatas.

    Partindo do ponto mais básico – que você pode identificar de forma empírica, no seu dia a dia −, nós somos extremamente egoístas. Ouso até dizer que não há absolutamente nada que façamos sem ter como objetivo alcançar algum resultado que nos beneficie.

    A pergunta mais interessante, nesse sentido é:

    Você faz o bem, porque o outro necessita ou faz o bem porque fazer o bem te faz bem?

    É evidente que o resultado dessa obra é digno, mas note como o percurso é egoísta. Quando eu digo que talvez não exista nada, estou falando justamente disso. De certa forma, até o nosso fazer o bem está maculado pelo nosso egoísmo.

    E o egoísmo é só uma das características que podemos identificar nas pessoas que nos cercam e em nós mesmos. Existem muitas outras e se você prestar muita atenção em cada ação tua, durante um dia, verá que quase todas elas estão marcadas com esse selo.

    Como eu disse em outro texto, nós nunca conseguimos enxergar nosso reflexo real. Estamos sempre diante de um espelho que nos embeleza a alma, mas no fundo, eu tenho certeza que todos nós conhecemos quem somos, os pensamentos que passam por nossas cabeças, nossos desejos.

    Esse espelho brinca conosco o tempo todo. Ele rouba nosso foco de quem somos, do que realmente importa e bota nossos olhos sobre nossos corpos imperfeitos, gordos ou magros demais para o padrão estético vigente. A estética é só um elemento, mas nós achamos que ele é o único elemento. E fazemos isso porque achamos que somos boas pessoas, logo, nosso eu interior está bem e o problema reside na distância que nosso eu exterior tem da beleza.

    Não há nada mais admirável que uma obra ou pessoa que consiga enxergar além das máscaras.

    O noir é um subgênero da literatura policial e suas histórias normalmente acontecem na cidade. O detetive em questão, passa grande parte da história “batendo perna” pelas ruas em busca de pistas que venham a ajuda-lo a resolver determinado caso. A diferença principal do Noir para os outros subgêneros da literatura policial, é a atmosfera da história.

    As histórias do Noir são cercadas de ceticismo. Os personagens costumam ser bastante cínicos, principalmente o detetive, que normalmente amarga uma vida extremamente dura e ingrata. Os detetives do Noir costumam ser homens destruídos, homens que estão em pedaços. Eles não têm nada, nem dinheiro, nem família, nem amores ou direito a felicidade. São homens da rua, do trabalho e do perigo.

    E por isso esse gênero é tão encantador. Enquanto os romances policiais clássicos se desenrolam em bibliotecas, navios ou vagões de trem, o noir se debruça sobre a imundície da cidade grande, percorrendo as esquinas, os becos e as sarjetas. O crime organizado, os policiais corruptos, os palavrões a desesperança. O Noir colocou os romances policiais em um ponto de contato com a vida, e justamente por criar essa ponte entre a realidade sofrida da população pós-grande-depressão e os personagens, o Noir foi o gênero mais lido na América nas décadas de 30/40.

    Raymond Chandler talvez seja o maior responsável pelo sucesso do gênero. Escreveu livros, roteiros e contos, explorando a literatura de várias formas e expondo os demônios da Cidade dos Anjos (Hollywood).

    Não há nada mais admirável que uma obra ou pessoa que consiga enxergar além das máscaras.

    Raymond conseguiu colocar em suas histórias àquela atmosfera densa e escura que a população americana vivia naquele período. Nesse momento, não havia espaço para o luxo, para a riqueza, para as histórias de alta classe. As pessoas se viram representadas na falta de esperança, desilusão e desespero dos personagens, justamente porque estavam diante desses mesmos elementos vinte e quatro horas por dia. Suas vidas eram amargas, bem como a dos personagens do Noir.

    Não é exagero dizer que Raymond Chandler foi quem tirou a linda máscara que cobria a face putrefata da luxuosa Hollywood. E aqui reside o ponto onde devemos parar, bater palmas e entender a importância dessa atitude.

    Se hoje, mesmo com toda a tecnologia e a exposição das celebridades nas redes sociais, nós continuamos a vê-los como seres diferentes de nós, como superiores, interessantes e inteligentes, imagine como era a visão que o público tinha da celebridade, do rico, do patrão, naquela época.

    Quando Raymond Chandler arranca a máscara daquela Hollywood, ele lança luz sobre toda a podridão que existe nos mais altos círculos. Essa luz, além de os expor, também os coloca no mesmo nível moral e na mesma espécie do “resto” das pessoas.

    Uma evidência de que continuamos nutrindo esse pensamento estúpido, é a quantidade de manchetes que anunciam: “Sicrano estava caminhando na praia”, “Fulana diz que peida em frente o namorado”, percebe? Continuamos nos chocando com o que é natural, continuamos vivendo na cultura do paparazzo porque enxergamos essas pessoas num patamar acima.

    Mesmo nutrindo uma visão extremamente superestimada de quem somos, nós ainda conseguimos superestimar ainda mais a visão que temos sobre as celebridades.

    Quando Raymond Chandler diz que aquela Hollywood estava cheia de podridão, ele não estava falando que a população era melhor, só estava dizendo que todos eram igualmente podres e imundos, sacou?

    E é assim que nós vivemos, com a ilusão de sermos boas pessoas e que nossas maldades são por conta de um momento, de um dia ruim, que nossos pensamentos são frutos do Diabo, mas nunca passa pela nossa cabeça que somos SIM pessoas ruins, que somos SIM pessoas sujas, egoístas, mesquinhas, medíocres. Isso não passa pela nossa cabeça e é justamente por isso que eu disse lá no começo: Não há nada mais admirável que uma obra ou pessoa que consiga enxergar atrás das máscaras.

    Quando se conversa sem essa máscara que nos embeleza, existe muito mais honestidade. Quando você diz o que quer dizer e não o que precisa dizer. Quando você olha para si mesmo e enxerga seus pontos de loucura, tesão e tristeza e não os ignora, existe honestidade e essa honestidade não está ligada a uma determinada expectativa social, mas está ligada tão somente a compreensão de sua própria pessoalidade. Entende? Você enxerga aquele pensamento que diante de todos é errado e não o reprime, mas o compreende e isso é honestidade, sacou?

    Recentemente li “A Porta de Bronze”, um livro de contos de Raymond Chandler e a partir do segundo conto, Chandler me deu absolutamente tudo o que eu estava esperando e mais um pouco. Todo o cinismo, todos os tons de cinza, os personagens bem construídos, tudo está ali. Quatro contos excelentes em seguida, um trazendo tons mais bem-humorados, outro mais sensíveis e outro bastante áspero. Chandler faz descrições muito precisas e visuais, de forma bastante direta – Outra característica do Noir −.

    Essa leitura foi muito interessante porque eu tive um primeiro contato com esse autor brilhante, com o gênero do Noir na literatura e me trouxe essa reflexão acerca da importância de fazer com que as máscaras caiam.

    Se você acompanha o que escrevo, sabe muito bem que um elemento recorrente nos meus textos, é a exploração interna dos personagens. Quando escrevo, a primeira coisa que faço é deixar meus personagens completamente nus. Faço com que deixem para trás todas as camadas e camadas de merda que a sociedade nos faz vestir.

    Meus textos normalmente tentam construir uma atmosfera semelhante à construída por Raymond Chandler. Um elemento interessante que noto tanto na minha escrita, quanto na de Chandler e de muitos outros autores que tem esse objetivo, é a presença da noite em suas histórias.

    Particularmente, sinto-me ainda mais confortável para criar provocações e personagens que revelem seu eu animal, quando a história acontece durante a noite, porque existe, até na nossa sociedade, uma espécie de dicotomia entre a pessoa que somos durante o dia e a pessoa que somos durante a noite.

    Durante o dia somos funcionários, empresários, políticos, mas durante a noite somos bêbados, bissexuais, sadomasoquistas, sacou? A noite geralmente é sinônimo de liberdade. É sinônimo de pecado, de transgressão e é justamente por isso que as histórias que possuem esse objetivo, comumente são ambientadas sob a luz do luar.

    Raymond Chandler descortinou a cidade dos anjos no século passado. Revelou sua podridão, seus tesões e fetiches, seus crimes. Mas, e nós? Por que continuamos fingindo que somos santos?

    Chandler levou para a literatura policial um retrato da realidade e é por isso que eu digo: Que se foda Agatha Christie e seus navios e bibliotecas, a história acontece nos inferninhos, nos pontos de ônibus, atrás das árvores.

    Chandler arrancou as máscaras que sorriam e exibiam dentes brancos e revelou a carne viva, repleta de larvas.

    Você provavelmente não vai aceitar, provavelmente não vai assumir, mas pense em quem você é. Pense naquilo que você consome de pornografia. Pense nos seus tesões e nos seus ódios. Talvez você perceba que não é tão anjinho assim. Talvez você perceba que não é tão puro quanto imaginava.

    Os tons de cinza, o cinismo, a desesperança, a depressão, o sexo, a sujeira, são recorrentes no Noir, mas você sabe que eles são ainda mais recorrentes aqui, não sabe? Na nossa vida.

    Há um termo que designa esse tipo de literatura. Realismo sujo. Eu gosto desse termo. Nossa realidade é suja e nós não somos puros.

    Vivemos destilando egoísmo e veneno. Vivemos imersos em falsidade e ganância. Vivemos mentindo e enganando. Pare realmente para pensar nisso. Veja como somos medíocres e quando fizer isso verá a realidade sem suas cortinas de prata e pedras preciosas. Sentirá o cheiro do prazer e do pecado, porque assim é a nossa vida.

    Se me permite um conselho final.

    Ao ser honesto consigo mesmo, você verá que não é bom, bem como as outras pessoas também não são. No começo vai ser difícil esperar o pior das pessoas, mas você verá que as probabilidades sempre apontam para o pior. Saiba aproveitar quando o pior não estiver diante dos seus olhos e se proteja dos outros. Ah! Assuma seus fetiches, medos, angustias e ódios. Fazer isso não vai te tornar pior que nenhum conservador. Todos somos igualmente fodidos.

    Por fim, obrigado Raymond Chandler, O Mestre do Noir, por descortinar a Cidade dos Anjos e revelar seus demônios. Que essa geração medíocre possa beber de seus pensamentos e gozar novos prazeres e pecados.

    Só quero te lembrar que você não é melhor, nem pior. Você é tão ruim quanto todo o resto da humanidade, então relaxe, beba, leia e foda como se não houvesse amanhã. Talvez Deus não exista, então liberte seus demônios e se divirta nessa vida que é difícil pra caralho de suportar.

    E Leia Noir. Leia Raymond Chandler.

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    Nunca fale com nenhum deles. Faça o seu trabalho e vá embora. Não ouça nada, nem fale nada. E você diz que tudo bem.

    Você consegue não falar se quiser, mas não dá para não ouvir.

    Você está lendo um livro qualquer, pode ser um clássico ou um best-seller, não importa. Você está sentado no ônibus lendo as porcarias que aparecem na sua linha do tempo do facebook, está concentrado em perder seu tempo com aquilo, mas mesmo assim, mesmo sem querer, você acaba escutando a conversa de duas velhas no banco da frente. Então você tenta não prestar atenção, mas Márcia não deixa a velha ver o neto. Você tenta se concentrar, mas o filho da outra velha arrumou um novo emprego.

    Você consegue não falar, mas não dá para não ouvir.

    Não ouça nada, nem fale nada. Ela insiste em repetir.

    Eu recebo uma agenda com todos os horários, é uma nova agenda todos os dias. Me organizo e trabalho enquanto eles estão fora.

    Às sete e meia eu limpo o quarto de um deputado qualquer, enquanto ele está em alguma reunião de fachada.

    Eu sei que é de fachada porque acabei ouvindo uma conversa.

    Quando fui contratado me disseram para não falar com eles. A secretária me disse que se eu trabalhasse bem, me indicaria para outras secretárias. Ou seja, se eu fosse um bom funcionário limparia o banheiro de outros deputados, senadores e quem sabe o banheiro do presidente, talvez desentupisse a privada de algum deles!

    Não deve falar com eles, nunca! Ela diz.

    Quando a primeira secretária me entrevistou, eu achei que eles fossem os meus patrões, mas depois entendi que eles não eram somente eles. Quero dizer, não ouça nada, mas é claro que ela sabe que você vai ouvir, então não fale com eles. Com os jornalistas, com outros empregados, com sua família.

    Você aproveita uma reunião aqui, um almoço ali, alguma votação à tarde e no fim do dia você limpou vários quartos.

    Quando a entrevista termina a secretária te chama e fala um pouco sobre o seu novo chefe. Talvez você encontre alguma coisa diferente eventualmente, ela diz. Você ganha mais dinheiro por limpar essas coisas que eventualmente estarão em algum canto do quarto. Eventualmente.

    Ela segura você pelo braço e te olha nos olhos. Diz que precisa confiar em você. Confiar que você vai manter segredo caso encontre alguma coisa diferente.

    Então você arruma a cama. Organiza o quarto. Tira o lixo do banheiro. Tira o pó dos móveis. Aspira o carpete. E sempre encontra uma coisa diferente.

    Você pode ligar o rádio, mas não muito alto. E sempre vai ter de deixar o seu celular na recepção. Eles não querem que você tire foto de algo diferente.

    A entrevista já acabou. Ela já fez suas anotações, mas continua falando. Agora a conversa é por meio de sussurros.

    A sala está vazia, ela está sozinha com você, mas continua sussurrando.

    O peso, a responsabilidade sobre eles é enorme. Você entende, não é? Respondo que sim, na verdade só balanço a cabeça. O dia é longo e cansativo e eles precisam relaxar, não é? Balanço a cabeça de novo. Imagine só? Representar milhares de pessoas. Representar um país! Consegue imaginar? Balanço a cabeça dizendo não.

    É por isso que você precisa limpar tudo no outro dia. Eles chegam cansados e precisam relaxar. E você precisa limpar tudo.

    A entrevista terminou há vinte minutos. Eu fui contratado, mas a conversa continua.

    Você encontra um pó branco na pia do banheiro. Você encontra o pó branco na mesa de centro. No criado-mudo. É um teste, então você limpa tudo.

    Você encontra camisinhas cheias, escorrendo pelo carpete. Você encontra calcinhas jogadas no box do banheiro. Você encontra tufos de cabelo caídos ao pé da cama. Você é de confiança, então limpa, organiza e joga o resto fora.

    Você pode continuar ouvindo Raça Negra, desde que seja bem baixinho.

    Toda dengosa...

    A secretária diz que está muito contente com seu trabalho, diz que você é o melhor que já tiveram e que foi muito triste o fim dos outros empregados. Ela está te elogiando ou te ameaçando?

    Você passa por outra entrevista. Um outro deputado qualquer. Essa secretária faz perguntas sobre sua família, como se eles já não soubessem, certo?

    Você escuta que o partido está planejando uma manobra política para fugir de algumas investigações, mas você não está lá. Não pode estar lá. Você escuta no corredor, quando cruza com duas secretárias, mas é invisível e surdo.

    Elas te olham e você já sabe. Se falar com alguém sobre isso....

    Você sabe que está crescendo na profissão, que está sendo reconhecido. Você passa a limpar o quarto de um senador. É o topo, você imagina.

    Você tira o pó das simples molduras de plástico com fotos de família. Você tira camisinhas usadas que estão boiando na água do vaso sanitário. Você amarra e joga tudo no lixo.

    Você escuta que o partido está tendo dificuldades. A imprensa está caindo matando em cima de um dos líderes do senado. Você torce para que não seja o seu senador.

    Pela manhã você limpa o quarto de seu primeiro deputado e encontra uma dúzia de carreiras finas e longas, intocadas.

    A secretária diz que ele precisou sair muito cedo.

    Você decide cheirar uma delas, mas limpa as outras.

    Você trabalha com prazer, é um bom emprego. São homens bons. Fazem o que fazem, pelo bem do povo.

    Consegue imaginar o que é representar milhares de pessoas?

    Eles precisam relaxar, é muita pressão, sabe?

    Precisamos compreender, o Brasil não anda bem das pernas.

    Parabéns, ela diz quando você completa seu 4º ano como faxineiro. Já acumula três quartos. Dois grandes senadores e um promissor deputado.

    O capitalismo reconhece quem trabalha.

    Você ganha bem e o pó que eles cheiram é do melhor que existe.

    Você não vê mais sua família e agora você sonha que o seu Senador vence a eleição. Você sonha com isso.

    Ele aparece no meio da manhã e te encontra com o nariz atolado na mesa de jantar. Ele pigarreia e você se vira com o nariz branco.

    Você já trabalha pra mim há 3 anos, ele diz. Você responde que trabalha a 4 anos e 3 meses. Ele diz que isso é muito bom, e você apenas balança a cabeça, indicando que sim e limpa o nariz, é claro.

    Ele coloca a mão nos bolsos de dentro do terno e tira um saquinho lacrado. É o mesmo pó branco.

    Eu acabei de conseguir essa, ele diz. Você quer? Ele está oferecendo.

    Você diz que está trabalhando, está limpando. Ele diz que isso é besteira, vamos uma só. Uma de cada, ele insiste.

    Ele despeja o pó e organiza a carreira em uma linha reta e fina, tão bem-feita. É lindo de se ver. Se o próprio Deus decidisse fazer uma carreirinha para você, ela seria perfeita como aquela.

    Eu acho que vou ganhar, ele diz. E você pergunta, ganhar o que, tomando cuidado para não soprar o pó para todo o quarto.

    A eleição, ele responde.

    É claro que vai, você diz se preparando para aspirar tudo.

    Você passa no corredor por outros faxineiros, alguns que estão há mais tempo que você no negócio. Eles não gostam de você.

    Você agora está ajudando o senador a transferir suas coisas para o Palácio da Alvorada. Eles não podem suportar isso.

    Você ganha novos materiais de trabalho. Um aspirador que não faz barulho. Uma vassoura com suas iniciais em pequenas pedrinhas brilhantes, e sempre tem uma carreira perfeita em um espelhinho debaixo da cama do presidente.

    Dá pra acreditar? Ele faz uma carreira toda manhã, para você. Ele é o presidente, mas faz uma carreira para você. Especialmente para você.

    E você trabalha para o presidente da república.

    Você é amigo do presidente da república.

    E você já não escuta mais nada e quando escuta sabe a quem deve contar.

    Ele é generoso, sabe?

    Sempre vale a pena.

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    Há quase um mês eu escrevi a primeira versão desse texto. Ela começava mais ou menos assim: “Estou ouvindo Lo-fi há quase um mês”. Hoje estou reescrevendo esse texto e já são quase dois meses ouvindo lo-fi todos os dias. Se por acaso você estiver lendo esse texto muito tempo depois de sua publicação, faça a soma dos meses que estão entre publicação e leitura e você saberá a quanto tempo ouço Lo-fi.

    Antes de qualquer coisa, acho que devo explicar um pouco sobre Lo-fi e a melhor forma de fazer isso é dizendo que Lo-fi é uma vertente musical que deriva, principalmente do jazz e do hip-hop. O que quero dizer com isso é que elementos desses dois gêneros, estão presentes em quase tudo que é produzido dentro do lo-fi. As melodias do lo-fi são majoritariamente originarias desses dois gêneros e se você já ouviu jazz ou hip-hop, vai conseguir notar esses elementos melódicos. Outro ponto interessante é que tanto o jazz quanto o hip-hop têm características muito “instrumentais” e até por isso, pouco do lo-fi é vocalizado, entende? Poucas músicas possuem letras e composições muito elaboradas.

    Eu gosto de pensar essa vertente da seguinte forma: “O Lo-fi é como o barulho que abafa o ruído externo e promove o silêncio perfeito”. Parece uma puta loucura, eu sei, mas vamos um pouco mais afundo nesse pensamento.

    Eu disse acima que o Lo-fi é muito mais batida e instrumentalização do que propriamente vocalização e composição, certo? Há no Lo-fi esses elementos rítmicos do hip-hop que marcam um compasso bem claro, uma batida constante e os elementos melódicos do jazz que compõe com graciosidade o som que está sendo ouvido. Dessa forma, quando você escuta o som é imediatamente imerso naquele microcosmos. É como se do início da música ao fim da música você estivesse surdo, mas não para o som no geral, surdo apenas para os ruídos externos que desconcentram e irritam. Se você consegue imaginar isso, também consegue entender a afirmação que fiz acima. Basicamente, é como se o lo-fi (o som) te deixasse surdo para tudo e criasse o silêncio do nada. Um silêncio.

    É importante ressaltar essa sensação, essa experiência de silêncio sonoro, porque há no lo-fi enquanto vertente, um caráter extremamente introspectivo e reflexivo. As músicas são feitas para propiciar o ambiente perfeito para que você consiga entrar em contato consigo mesmo – e nem falo necessariamente de algum contato espiritual.


    Pensando no mundo em que vivemos, é extremamente difícil nos encontrarmos sozinhos ou em ambientes silenciosos. Se você está em casa existe outro alguém querendo falar algo, ou um cachorro latindo ou um caminhão passando. Se você está no ônibus, são dezenas de pessoas ao seu redor. De certa forma, todas essas mudanças e evoluções roubaram de nós o “direito” de estarmos sozinhos. Nos tempos em que vivemos é loucura pedir silêncio, é loucura não querer conversar, é loucura se trancar num quarto para ler um livro ou ouvir um som. 

    Isso revela muito sobre nós, enquanto humanos, já que na medida em que evoluímos e desenvolvemos novas tecnologias, tornamo-nos na mesma medida mais carentes. É como se o facebook, o responsável por nos aproximar, ou o WhatsApp, ou qualquer outra rede social, ao mesmo tempo que nos aproximasse, também nos deixasse ainda mais solitários – E aqui é importante entendermos a diferença entre solidão e solitude. Já que a primeira é entendida quase como um estado de agonia e tristeza, e a segunda entendida como prazer e plenitude em estar consigo mesmo.

    É bizarro pensar sobre isso. Quero dizer, nós estamos sempre tentando estabelecer contato com os outros, de qualquer forma possível. Seja comentando “linda” na foto daquela amiga, pela milésima vez, ou discutindo algum tema bobo com outra pessoa, ou até criando mil grupos no WhatsApp. Não me parece exagero pensar que mesmo próximos uns dos outros (online), estamos cada vez mais solitários e voltando ao assunto do qual estamos conversando, já não existe mais silêncio e o Lo-fi funciona muito bem como esse abafador de ruídos, que ao abafar o ruído externo, também ecoa os vazios e medos que carregamos no mais íntimo do nosso ser, mostrando justamente esse caráter introspectivo.

    Por muito tempo eu ouvi música clássica buscando esse efeito e de fato funcionava. A música clássica parece promover a concentração e também funciona eliminando os ruídos externos. Também pode ser uma opção para quem busca esse efeito. O que me faz gostar “mais” do Lo-fi é que ele é um fruto bom dessa árvore online que dá tantos frutos podres. 

    Quando digo isso, me refiro ao fato de termos no lo-fi a união de várias mídias na formação de um produto cultural. Quando penso lo-fi, além do som extremamente marcante e característico, também me vem a mente, quase que no mesmo momento, os gif’s que formam o “videoclipe” da música e colaboram na criação dessa atmosfera mágica.

    Essa união de mídias teve um papel fundamental no meu primeiro contato com esse estilo musical. Eu estava na home do Youtube e vi que a miniatura de um vídeo tinha o personagem Morty (Rick and Morty) e como fã da série, naturalmente fiquei interessado. O nome do vídeo era “F e e l l i n g s”, escrito dessa forma, com espaçamento entre as letras. Fiquei mais interessado ainda e quando finalmente cliquei, fiquei muito fixado no vídeo. 

    A música começou e a batida era bem envolvente, leve e suave. Gostei muito do som, logo de cara. Mas, a parada que me manteve fixado mesmo foi o que estava rolando no vídeo. Era um gif animado com um recorte muito pequeno do desenho “A hora da Aventura”. Esse recorte fora editado com um filtro retro e com alguns “chuviscos” de televisão velha, saca? Dois personagens estavam sentados lado a lado e um deles dizia: “Man, i just want to go to sleep – Cara, eu só quero dormir” e fiquei impressionado por como aquela combinação, aquela simples combinação, poderia ter tanto poder, porque imediatamente eu me senti tomado por aquele ambiente e de certa forma, pude “ouvir” o silêncio que eu precisava “ouvir”. 

    É evidente que essa “paixão” tem muito a ver com meu estado de espírito naquele momento específico. Eu não vinha andando muito bem há algum tempo. As coisas não caminhavam de forma saudável. Eu estava triste e bastante cansado, então eu consegui entender e me identificar com o drama daquele personagem que só queria dormir, só queria descansar, só queria desligar a máquina por algum tempo. E falando dessa união, a música não poderia ter sido mais eficaz na missão de me permitir pensar e descansar.

    Essa experiência foi maravilhosa porque naquele momento eu me senti muito melhor. Era como se tivesse encontrado algo que estava faltando. Os dias que seguiram esse primeiro contato foram muito melhores. Tive alguns momentos ruins, naturalmente, mas as coisas melhoraram e eu sinto que não foi uma melhora “boba”, porque eu me lembro de ter me esforçado para lidar comigo mesmo. Enfrentar pensamentos, lidar com pressões e de certa forma o Lo-fi me deu uma nova força e uma “nova paz”. Não foi uma melhora que evita pensar, mas uma melhora que enfrenta os pensamentos, saca?

    E sei lá, talvez isso reafirme o que tentei dizer acima.

    É tanta coisa, o tempo todo, são tantas vozes e tantos gritos que nossas cabeças ficam sempre a ponto de implodir. Já disseram que sou muito duro ou egoísta, mas é sério, eu não quero e nem gosto de ouvir os problemas dos outros, porque eu já tenho meus próprios problemas e mal sei lidar com eles. Eu sei que as pessoas precisam falar, mas eu não sou a pessoa certa para ouvi-las.

    Nós estamos cada vez mais carentes e solitários, isso é natural e talvez até seja irreversível. Nós vivemos com Smartphone's colados nas mãos, somos viciados nessa merda, nos alimentamos dessa droga que diz nos aproximar, mas só nos afasta. Você escolhe falar e gritar cada vez mais alto esperando que alguém te ouça, tudo bem, é uma opção, mas eu prefiro o silêncio e a solidão e se tudo der certo a solitude, não acho que minha escolha seja melhor, mas é assim que as coisas funcionam para mim.


    Voltando a falar sobre o que é o Lo-fi, a origem do termo vem de “Low fidelity” que é justamente a ideia de se fazer música com baixo orçamento ou com nenhum orçamento. Nesse caso, não existe fidelidade aos meios convencionais de se fazer música. O compromisso é apenas com a própria música e consigo mesmo, no sentido de deixar que sentimentos e ideias fluam através do som. 

    Eu gosto demais do nome dessa vertente, porque conversa muito com o que eu acredito e como me enxergo. O ser “Transgressor” passa muito por isso, por fazer e acreditar que existe algo em você que precisa jorrar para o mundo. Existe algo que borbulha dentro do seu ser e que precisa transbordar e sinceramente, não importam as complicações, não importa quantas pessoas vão ouvir o som ou quantas pessoas vão ler o texto, importa apenas deixar que o seu ser flua através das palavras e das melodias e das pinceladas e do que mais você quiser fazer.

    A Arte tem esse papel antidepressivo, tem esse caráter libertador e tranquilizante que não nos deixa atrofiar. E nesse sentido, eu sou muito grato por aquelas primeiras pessoas que liam meus textos fofinhos e dramáticos e gostavam daquilo e comentavam nos meus posts, porque talvez se não fossem essas primeiras reações, esses primeiros leitores, esses primeiros textos horríveis, eu não teria conhecido a arte de escrever, a arte que me liberta, que me fornece escape, que me permite.

    O Lo-fi talvez seja um gênero para os apaixonados, para aqueles que precisam deixar o seu “eu” jorrar, e cara, como eu amo esse tipo de arte, esse tipo de som, essa coisa que é feita com paixão, que é feita com pouco, que é feita com nada.

    Falando de forma bem subjetiva, eu enxergo o lo-fi como um grande meio para toda a introspecção. Quero dizer com isso que, ao ouvir lo-fi você vai ter o ambiente e o convite para a sua introspecção. A música te dá isso, o vídeo te dá isso e tudo o que eu disse sobre o silêncio melódico também te oferece esse espaço de paz para mergulhar em si mesmo, ou até para lutar consigo mesmo.

    Quando comecei a ouvir e pensar sobre o lo-fi, fiquei me questionando por quê os clipes eram feitos com gif’s bem tristes de desenhos animados. E sei lá, talvez exista uma explicação dentro da história do movimento, mas aqui, quero tentar pensar sobre isso de forma “autônoma”.

    Os desenhos animados são elementos culturais historicamente compreendidos como produtos infantis, certo?

    A partir disso vamos pensar primeiro, que esses gif’s são recortes tirados dos próprios desenhos, não são criados para os vídeos de lo-fi, ou seja, de certa forma as crianças estão tendo algum tipo de contato, com personagens que refletem os vários estados de espírito que enfrentamos. Personagens que estão deprimidos, que perderam a razão de viver ou que não compreendem a existência. E que bom que esses personagens “infantis” existem, que bom que as crianças têm contato com esses estados de espírito. Isso não vai tornar todas elas depressivas, fique calmo. Mas, talvez possa oferecer pontos de contato para crianças que ainda não compreendem porque estão tristes ou porque se sentem como se sentem. Isso com certeza as faz entender que aquilo que estão sentindo é natural, que elas não são estranhas e talvez até consigam encontrar formas de lidar com isso, seja conversando com alguém ou desenhando e criando coisas.

    Segundo, muitos dos protagonistas desses desenhos não são humanos, alguns até tem a figura humana, braços e pernas, mas quase sempre há algum elemento absurdo e surreal para distancia-los e aproxima-los de nós, tudo ao mesmo tempo. Quando a figura é totalmente absurda não se tem problema algum com algumas formas de humor e representações emocionais mais complexas, ao mesmo tempo que, quando essas figuras absurdas manifestam sentimentos humanos acabam por gerar uma empatia igualmente absurda.

    E pensando em todo o contexto, o Lo-fi promove esse espaço para introspecção. É uma música claramente reflexiva, os títulos sempre têm a ver com emoções, dramas e dificuldades humanas, como sentimentos, amor, cansaço, insônia, melancolia, nostalgia, enfim, quando esses desenhos surreais/antropomorfizados manifestam sentimentos e angustias humanas, acabam gerando uma série de reações emocionais que passam desde empatia até o desejo de se autocompreender, pois no momento em que você se identifica com o título, com a angustia do desenho e com a música já não há mais volta. Você é imerso em pensamentos e precisa enfrenta-los.

    E para finalizar, pensando no porquê dos desenhos, acho que talvez tenha a ver com expor nossas angustias e sentimentos de forma simples, nos lembrando que não importa quão evoluídos tecnologicamente estivermos, continuaremos tendo que lidar com as crises e medos. Os desenhos, de certa forma, nos lembram justamente da nossa infância e talvez tracem algum paralelo sobre nossos estados de espírito e sobre as mudanças que enfrentamos da infância até os dias de hoje. Ou talvez, ver o Bart Simpson triste seja só um lembrete de que todos, todos, todos mesmo, ficam chateados e se sentem mal, até nossos companheiros de infância que sempre estiveram prontos a nos divertir. 


    O Lo-fi foi uma descoberta maravilhosa. Uma descoberta que só tem me feito bem. É uma vertente que emana de vários gêneros musicais e que por si só é riquíssima, mas que conta com alguns outros recursos que nos dão algo que tanto nos falta. Silêncio e espaço para escutarmos a nossa própria voz.

    A tristeza existe! E terminar o texto com essa simples afirmação pode parecer loucura, mas em um tempo em que todos precisam estar sempre felizes e animados, afirmar a existência da tristeza não é loucura, é só uma forma de lembrar a todos que TUDO BEM FICAR TRISTE e que mesmo não sendo eu a pessoa a te ouvir e te ajudar, você com certeza encontrará alguém, um amigo, um profissional, não importa, só saiba que a tristeza faz parte da vida e que de certa forma ela nos ensina muito sobre a felicidade.
    F e e l l i n g s
    https://goo.gl/yr4YU9

    R e s t
    https://goo.gl/TNuyRL

    N o s t a l g i c
    https://goo.gl/33SnVq

    N o s t a l g i c 2
    https://goo.gl/dbHXn4
    L o v e s i c k
    https://goo.gl/DS4fBo

    N o S l e e p
    https://goo.gl/E974oQ

    One Night In T o k y o
    https://goo.gl/USgjLb 

    One Nigth In R i o
    https://goo.gl/4Vyr4Y







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    pobre homem levando seu coração de trouxa
    Resultado de imagem para susano correia

    É evidente que toda e qualquer existência é cercada de dificuldades, desafios e derrotas. Essa é a natureza da vida. Uma série de dificuldades dispostas durante o tempo, jogando-nos de um lado para o outro, derrubando-nos e nos dando em alguns raros momentos alguns raros motivos para sorrir.

    Falo sobre a vida nos dar isso ou aquilo sem ao menos acreditar em destino ou até mesmo em deus. É apenas a força do hábito. O mais interessante seria dizer que estamos sozinhos em uma jornada pela vida, lidando com as consequências das nossas escolhas e também das escolhas dos que nos cercam, sem muito controle do que está acontecendo ou vai acontecer, quase passivos diante das muitas variantes que podem se apresentar e se formar, transformando as situações, as pessoas ao redor e até a nós mesmos.

    Existem várias formas de se enxergar a existência e de enfrenta-la. Os cristãos enxergam tudo isso através do prisma divino. Creem que há um deus por trás de tudo isso, alguém soberano, forte e poderoso, capaz de protege-los e sabiamente guia-los. Essa crença, naturalmente, reduz o número de pânicos e incertezas, tendo em vista que a aceitação da fé traz consigo uma infinidade de garantias que estão guardadas sob esse suposto deus soberano.

    Um cético, por outro lado, quando se desassocia do pensamento teísta se depara com um outro universo de possibilidades. Quando deus não está no jogo, não restam muitas certezas além da morte e do fim literal da existência, enquanto corpo e enquanto “alma”. Existem vantagens e desvantagens óbvias no ceticismo, bem como no teísmo. Como não creio na existência de um deus, vejo quase todas as vantagens do teísmo como enganosas, mas sem entrar nesse mérito, o ceticismo dá liberdade, porque ao entender-se sozinho, acabam-se as responsabilidades para com um ser eterno com poder suficiente para decidir o rumo de sua vida. Liberta-se de muitas amarras morais claramente retrógradas, preconceitos e estimula-se, de certa forma, o pensamento crítico para se tomar decisões com base em suas experiências e convicções, eliminando um livro sagrado que te direciona por caminhos pré-determinados. Como eu disse, existem vantagens e desvantagens. Talvez, viver alimentando a crença em um deus supremo não nos desse tanto espaço para o sofrimento ou desesperança. Talvez essa crença nos elimine certas dores, nos deixe mais relaxados com respeito a certas injustiças e mais tranquilos com relação a essa vida, tendo em vista que deus supostamente está no controle e supostamente dará uma boa vida eterna a todos os que depositarem sua fé nele.

    Eu estou usando a religião como um exemplo. Estou falando sobre existência. Formas de enxerga-la e formas de enfrenta-la, apenas isso.

    Quero dizer, simplesmente, que a existência é confusa e via de regra, extremamente dura. As incertezas, medos, angustias, pressões, ansiedades, dúvidas, todos esses elementos costumam ser muito presentes na vida da maioria das pessoas. Pensando principalmente nos tempos em que vivemos, é fácil notar como todos estão sempre correndo atrás de algo, pressionados aqui e ali, por outros e muitas vezes por si mesmos. A existência, portanto, costuma ser uma experiência um tanto quanto angustiante.
    homem em sua solidão superpovoada
    Resultado de imagem para notas visuais susano correia



    A Arte acaba manifestando muito dessa angustia, justamente por ser realizada por pessoas sujeitas a tais pressões, incertezas etc..... Nesse sentido, em muitos momentos nós encontramos na arte, alento, representação e as vezes mais angustia.

    Artistas lidam com esses elementos existênciais de diversas formas. Como escritor lido com essas questões diariamente e sou afetado constantemente por elas. Como alguém que ama o trabalho que faz, a arte que faz, luto constantemente com essas questões para absorver e transformar essas angustias em novos textos que ora provoquem, ora questionem, ora ofereçam alento e ora perturbem. Me vejo, de certa forma, como um catalisador dessas angustias e em determinados momentos como um refletor, as vezes como um filtro e as vezes como uma esponja. Quando se expõem e se abre para esse misto de sensações, se está sujeito à diversas reações emocionais, psicológicas e até físicas.

    homem lembrando-se de sorrir, no último segundo
    Resultado de imagem para sketch

    Por que quando estamos tristes tentamos ouvir uma música animada? Por que quando estamos tristes escutamos uma música ainda mais triste? Por que gostamos tanto de comédias românticas ou de dramas? Por que gostamos de obras de arte que contenham um tom questionador? Entende? O modo como consumimos arte, de forma ativa, muitas vezes ou quase sempre é direcionado pelo nosso estado emocional e psicológico. Outra vez, as reações são várias para vários estímulos e lembrando da pessoalidade de cada ser, não há como encontrar uma regra que consiga colocar-nos todos num mesmo ponto. Nisso a arte e as pessoas são iguais.

    As pessoas reagem aos estímulos de formas diferentes, bem como a arte possuí suas várias interpretações.

    Há pouco mais de um ano eu conheci Susano Correia, um artista extremamente talentoso que consegue trabalhar muito bem em sua arte, todos esses dilemas e questões que caracterizam a existência humana. Eu não conheço Susano intimamente, mas julgando pela minha própria experiência como escritor, acredito que essas questões e dilemas façam parte da rotina dele de forma bastante marcante. Talvez ele goste de enfrenta-las, talvez seja “assombrado” por elas, talvez seja confrontado vez ou outra por essas incertezas e medos naturais da vida. Isso é só uma especulação, evidentemente. Não tenho como saber de onde vem sua inspiração, mas com base nas obras que conheço do artista, fica claro esse fenômeno de reflexão, de provocação e de expiração.

    Quando vejo uma obra de Susano sempre me questiono sobre a natureza dessa inspiração ou sobre quais questões guiaram esses traços marcantes e formaram essa obra que muitas vezes carrega dor, carrega uma busca por auto compreensão, carrega ansiedade ou arrependimento. Penso sobre isso, porque quando sinto que há uma história a ser contada, sempre consigo chegar a um ponto inicial, consigo encontrar um lugar onde essa história surgiu. Seja de um fetiche, de um medo, de uma ansiedade, do passado ou de uma especulação sobre o futuro. Sempre há um ponto de nascimento da ideia, um ponto onde a inspiração se apoia para florescer e pensando no trabalho de Susano, esses pontos sempre parecem ser tão interessantes quanto a própria obra em si.

    Pensando sobre o trabalho de Susano, esse elemento introspectivo e humano se mostra recorrentemente. Quando penso nas inúmeras obras que promovem uma reflexão sobre o homem mergulhando em si mesmo, o homem olhando para si próprio, o homem se quebrando para se encontrar, esse caráter extremamente introspectivo no trabalho de Susano fica evidente, e aqui a arte surge outra vez como uma manifestação existencial, o transbordar de questões e angustias, que possivelmente não afetam o artista diretamente, mas que ele, sabiamente, consegue expor com naturalidade e doçura, expondo justamente essas ânsias e muitas vezes nos expondo ao ridículo com uma obra cheia de sarcasmo e humor.
    homem preso do lado de fora de si
    homem preso do lado de fora de si

#aforismovisual #revistak7 #drawing #pencildrawing #sketch #psicanalise #psique #filosofi

    A existência é uma grande confusão, não temos grandes certezas e se eliminarmos deus da partida, não nos resta nada além da morte. De certa forma, esse pensamento é aterrador e de certa forma bastante libertador. Pensando em como somos o tempo inteiro cercados de uma infinidade de variantes, enxergamos a existência de formas diferentes a cada dia. Não que tenhamos fé num dia e noutro não, mas enxergamos a existência de uma forma positiva e negativa a cada dia, a cada novo contato, a cada nova interferência externa sobre nós. O Ser Humano, quase pressupõe essa maleabilidade, principalmente quando pensamos na natureza dos afetos e sentimentos. De como nos enchemos de esperanças por nada e nos decepcionamos por nada, ou em outro momento somos quase impassíveis de sentimento. O que isso tudo significa é que basicamente somos seres em constantes mutações, mantendo um padrão de existência por momentos ínfimos. Mesmo que tenhamos personalidade, caráter e uma forma regular de se mostrar ao mundo, na realidade não existe um padrão existencial sincero. Quando olhamos para dentro de nós mesmos, raramente encontramos os mesmos elementos dispostos da mesma forma.

    Quando pensamos no “personagem” criado por Susano, o homem que protagoniza a maioria de suas obras, talvez encontremos um retrato extremamente sincero da nossa existência sob a pele. Há sempre melancolia nos olhos, um estado de ansiedade constante, pela próxima crise ou pela próxima alegria. E eu amo que esse homem não tenha a nossa força exata, mas que possua essa deformidade que causa estranhamento. É quase como se Susano, conhecendo a natureza provocativa de sua arte, nos desse um elemento de respiro, algo que talvez, num primeiro momento, causasse um distanciamento do homem que está se destruindo para se encontrar. Entende? Como se esse estranhamento tivesse como objetivo nos dar um respiro, diante da provocação que há na arte e diante das nossas próprias projeções e angustias.

    Mas ainda sobre o homem e sobre essa deformação em sua cabeça, eu gosto de pensa-lo como uma representação do nosso interior. As vezes até penso que as obras de Susano são sobre o interior de um homem que exteriormente é “normal”, digo, não teme esse formato triangular no topo da cabeça. Penso que Susano retrata em sua arte o que vê com seus olhos que enxergam sob a pele, algo como a representação das emoções e pensamentos. Das dúvidas, descrenças, esperanças, medos e angustias.

    Outro elemento de introspecção que me fascina na obra de Susano, é que em quase todos os seus trabalhos que tem o homem como “protagonista”, há um foco artístico e reflexivo na cabeça do homem e no peito do homem. Quase nunca vimos em seus trabalhos o homem de corpo inteiro, dos pés à cabeça. Penso eu que isso se deva justamente a entendermos o coração e a mente como a sede desses questionamentos existenciais, angustias e dores. É no pensamento que ocorrem as batalhas sobre quem somos e quem queremos ser. É o coração que tapa a garganta na angustia, é o coração que bate acelerado durante uma paixão, é o coração que se parte quando um relacionamento termina.



    homem procurando um lugar para se esconder de si, em si

    A obra de Susano é extremamente introspectiva em si mesma, nos traços, na ideia, na representação, mas como se isso não bastasse, há ainda mais da sensibilidade desse artista talentosíssimo transbordando em nossa direção. Quando você observa a obra e começa a tecer suas impressões, lê a legenda e fica ainda mais tomado por essas reflexões profundas, provocadoras e sobretudo belas, porque com poucas palavras Susano descreve sua obra, dando-nos uma interpretação quase óbvia, mas que disposta de forma simples − sempre simples −, com letras minúsculas, discretas e diretas, não nos roubam a graça da arte e a liberdade de a enxergarmos como bem quisermos, mas deixam um elemento poético bastante sutil.

    Outra vez digo que não o conheço intimamente, logo essa reflexão e esses pensamentos não passam de especulações e impressões pessoais de sua obra. Mas, partindo para o final, vejo-me quase sempre diante dessas mesmas questões existenciais que por vezes acabam por ditar nosso ritmo. Quase sempre me vejo diante delas na hora de escrever, quando encaro a página em branco do word, quando estou no banho ou quando vejo uma nova obra de Susano. Confesso que gosto de todas essas questões, até por ter durante quase três anos aberto mão completamente dessas reflexões. Confesso também que sou muito afetado pelas respostas que dou a essas perguntas. A existência continua não sendo fácil, mas entre negar a reflexão e aceitar uma existência vaga e vazia, escolho a dor e as crises, pelo tesão de pensar, pelo tesão de escrever, pelo tesão de me sentir extremamente humano quando me entristeço, quando estou melancólico e principalmente quando estou feliz, porque na felicidade enxergo-me tendo ótimos momentos de respiro e então aproveito esses momentos como uma criança inocente, valorizo-os ainda mais.

    Susano é um dos artistas mais fascinantes que conheço, um dos melhores do Brasil. Recorrentemente me debruço sobre seu trabalho para aprender, para apreciar e para refletir sobre nossa existência confusa, mas real e intensa, parafraseando Mano Brown.

    eu transbordo eu

    Espero que a obra de Susano também converse contigo. Espero que tenha gostado do texto e da reflexão. Espero seu comentário, para conversarmos ainda mais sobre essas questões.

    Um abraço e até a próxima. Boas reflexões existenciais a todos.

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    Site do Susano

    Enfim, infelizmente não tenho nenhum de seus livros, então conheçam melhor o trabalho dele e comprem suas obras, porque não resta duvida de que vale muito a pena.



    homem com profunda sede de si

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    Entre erros, acertos, grandes sucessos, fracassos e séries que ninguém nota, está Marco Polo. Poderíamos dizer que ela tem um pouco de tudo isso. É um grande acerto, é um sucesso, mas também é um grande fracasso, talvez o maior fracasso da história da Netflix.

    Em 2016 a série foi cancelada, então é natural que você ainda não a tenha visto. Foram apenas duas temporadas, um orçamento digno de um blockbuster hollywoodiano e um prejuízo de quase 200 milhões de dólares. Falando assim, a série parece realmente um fracasso absoluto, indefensável, mas na verdade não é.

    Antes de tudo, acho importante explicar para você sobre o que é a série, qual é o seu plot, então vamos lá!

    A série conta como foram os primeiros anos de Marco Polo na corte do imperador Mongol, Kublai Khan. O jovem explorador italiano – que viria a se tornar uma lenda – foi tomado como prisioneiro pelo grande imperador, e passou a viver em um Reino próspero, mas dividido por intrigas, ambição e rivalidades.

    A história de Marco Polo é bastante conhecida. Ele foi responsável por aproximar a Europa da Ásia, seus livros foram traduzidos para dezenas de línguas e são até hoje vistos como grandes tratados geográficos e históricos. A série avança da prisão de Marco, até a guerra travada para evitar a grande divisão do império.

    Agora que você já tem alguma noção da história que a série conta, nós podemos ir um pouco além para falar mais sobre a série.

    A primeira temporada tem 10 episódios, com um orçamento de 90 milhões de dólares. Eu não sei se você tem a exata noção do que isso significa, mas é muito dinheiro até mesmo para uma grande produção de Hollywood. Os valores que foram gastos, sem dúvida são o ponto chave para compreender o “fracasso” da série, tendo em vista que a expectativa da Netflix era expandir bastante o seu público, produzindo uma série histórica que narra fatos acontecidos na Ásia. Não há nenhum americano no elenco, a série foi filmada em Veneza, no Cazaquistão e na Malásia. É o primeiro “Drama Histórico” da Netflix, e por todos esses elementos esperava-se muito da série. As expectativas não foram alcançadas e por isso a série acaba em sua segunda temporada.

    A série começou a ser produzida pela “Starz”, mas depois de ter alguns problemas com a China, a Netflix, em parceria com a “The Weinstein Company”, assumiu o projeto e lançou a série. Depois do cancelamento, John Fusco, idealizador do projeto até cogitou retomar a série sem a Netflix, mas isso foi antes dos irmãos Weinstein’s, terem seus nomes ligados a uma série de casos de abuso sexual em Hollywood. Ou seja, é bem provável que essas duas temporadas sejam tudo o que teremos de Marco Polo – Pelo menos nesse formato.

    Enfim, agora que já falamos dos números altíssimos e das expectativas da Netflix, podemos falar dos grandes méritos da produção.

    Uma das coisas que me encanta na série é o seu design de produção. Todas as cenas possuem uma construção muito complexa. Se a cena acontece na sala do trono, você vê o design do trono e as roupas do Khan, sempre compostas por elementos típicos da cultura Mongol, os móveis, armas. Enfim, foram construídos mais de 51 cenários complexos, buscando a maior aproximação possível dos relatos da época, contando, para isso, com pessoas que estiveram envolvidas na produção de “O último samurai”, além de historiados que focaram seus estudos no período específico. Essa preocupação de retratar a estética histórica, somada ao orçamento da série, resultam em um espetáculo visual, em que a mise en scene é composta, é completa, é cheia de elementos que dão à série esse ar histórico e extremamente realista.

    Os atores tiveram de passar por grandes transformações para encarnar seus personagens históricos. Benedict Wong (Dr. Estranho, Guerra Infinita), precisou engordar 16 quilos e raspar o cabelo diariamente para interpretar o grande Imperador Kublai Khan. Lorenzo Richelmy, precisou aprender Inglês, montaria, artes marciais e lutas com espada, além de ter trabalhado muito seu porte físico. O elenco ainda tem outros ótimos atores, como Zhu Zhu (A Viagem), Tom Wu – que ganhou um especial pertencente ao contexto da série Marco Polo − (Batman Begins, 007 – Operação Skyfall), Joan Chen (O Último Imperador, Twin Peaks), Chin Han (Batman Cavalheiro das Trevas, Capitão América 2), além de atores que só haviam feito pequenas pontas.

    Como a trama de Marco Polo é recheada de intrigas, vaidades e ciúmes, todos os atores que compõe a corte de Kublai Khan, acabam realizando um trabalho muito importante na construção de seu personagem. Remy Hii é o Príncipe Jingin, filho do imperador Kublai Khan e ele vai muito bem dando pequenas indicações sobre o ciúme que sentia quando via seu pai, o Grande Imperador, dando ouvidos à Marco, um estrangeiro. Ele trabalha isso de forma bastante sútil, com um ou outro momento mais ríspido. Mahesh Jadu, interpreta Ahmad, um dos protegidos, conselheiros e ministro financeiro de Kublai, mantendo sempre um tom solene, elegante e astuto. Sempre nos falando mais sobre si mesmo com os olhos, do que com a boca. Enfim, a série demanda de todos os envolvidos um grande esforço e se você assistir a série, não lhe restará dúvida que todos compreenderam sua função e seu papel.

    A série evolui de forma muito orgânica, apresentando novos núcleos e colocando os personagens em novas situações. Você assiste a série ligado o tempo todo, prestando atenção nas novas linhas e conexões, nas novas intrigas e armações. Nesse sentido, não poderia deixar de falar do cuidado do roteiro em desenvolver essas tramas e tramoias, sem mudar o tom da série e sem perder o foco na trama principal. Ao mesmo tempo que a série aprofunda a relação entre os personagens – e faz isso muito bem −, ela apresenta uma trama romântica, apresenta tramas políticas, apresenta conflitos sociais e faz tudo isso de forma suave e natural. A série te permite compreender absolutamente tudo o que está acontecendo, desde a trama menor até o conflito principal.

    Então, Marco Polo é um prato cheio para que gosta de séries históricas, é um prato cheio para quem se encanta com personagens complexos, intrigas e jogos de poder. A série acontece na Mongólia Medieval, na corte de Kublai Khan, neto do grande Gengis Khan, que conseguiu, inspirado por seu avô, estabelecer a Dinastia Yuan que durou 97 anos. A série nos dá um roteiro riquíssimo, excelentes atuações, personagens interessantíssimos e um visual arrebatador. Uma série de narrativa rica e de um belo trabalho de ambientação histórica. Uma produção caríssima, que gerou uma excelente série. Cancelada, infelizmente.

    São duas temporadas com 10 episódios cada. Desfrute essa série, aproveite. É uma das melhores coisas já feitas pelo Netflix.







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    A 2º Guerra é um tema bastante abordado na cultura pop. Hollywood já dissecou a grande guerra de diversas formas e ainda assim, existem milhares de histórias não contadas. Nós poderíamos ficar horas citando filmes que se passam durante o período, sejam filmes que mostram o combate, sejam filmes mais políticos do que de ação, sejam filmes que mostram o país enquanto o combate está acontecendo, enfim, as abordagens são variadas e retratam a guerra de diversas formas, de perspectivas mais emocionais e pessoais, a perspectivas mais universais e culturais. Estou fazendo essa introdução toda, para mostrar como o tema da guerra é recorrente na cultura pop, para mostrar como existem histórias, momentos e visões diferentes sobre os fatos.

    Five Came Back, é um documentário original Netflix, que enxerga a guerra através do Cinema. Mais precisamente, através da vida de 5 cineastas fantásticos, que faziam muito sucesso na década de 30, mas que abriram mão da sua comodidade para auxiliar seu país e relatar, através do cinema, os horrores da guerra e usar da arte cinematográfica para impulsionar, encorajar e tranquilizar o povo americano. Esses diretores são: John Ford, Frank Capra, John Huston, William Wyler e George Stevens, todos nomes renomados e adorados pelo público, mas que foram para a Guerra e acompanharam a ação com suas câmeras – muitas vezes estando, literalmente, no meio da ação.

    O Cinema passou a exercer um papel fundamental durante a 2º grande guerra. A Máquina de Propaganda Nazista trabalhava a todo vapor, propagando os ideais de Hitler. A Itália também trabalhava muito bem a imagem de Mussolini, e naturalmente os Americanos precisavam produzir suas obras sobre a Guerra. Muitos filmes foram feitos durante o período. Os diretores e suas equipes filmavam o que era possível, editavam muito rapidamente – quando era possível – e enviavam para ser distribuído em solo americano. Mas, um ponto muito importante nesse período, é a utilização das animações para informar, divertir e encorajar os soldados americanos. Em algum momento no começo da guerra a Disney esteve presente e posteriormente a Warner Bros, produzindo animações que ridicularizavam Hitler e Mussolini, e por consequência acabavam dando uma injeção de ânimo e um alívio para os soldados aflitos.

    Havia também uma preocupação muito grande com a “demonização” das nações “adversárias”. Hitler era o inimigo, não o povo alemão. Então esse era um ponto que sempre acabava entrando em discussão, porque evidentemente, quando você mostra o bombardeio de Pearl Harbor, feito pelos Japoneses, no ímpeto de contra-atacar, fica muito difícil distinguir a liderança, do povo. Nesse período, essa era uma das maiores preocupações, tendo em vista que a guerra um dia acabaria, e era importante que os Estados Unidos, como “defensores da vida e da liberdade”, não fossem responsáveis por perpetuar novas segregações (Apesar de dentro do próprio exército, haverem certos problemas com os soldados negros).

    Five Came Back, é baseado no livro de mesmo nome, e nos oferece uma visão muito interessante sobre como o Cinema foi importante durante a guerra e como o Cinema e os cineastas foram transformados durante, e depois da guerra. Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, Paul Greengrass, Guilhermo Del Toro e Lawrence Kasdan, são entrevistados e fazem comentários sobre as experiências dos 5 diretores supracitados, além de fazerem comentários sobre a sua própria experiência com os filmes originários da guerra e do pós-guerra.

    Spielberg, um dos entrevistados no documentário, sem dúvida alguma foi muito impactado por esses filmes de guerra. Hoje, quando pensamos em Spielberg, naturalmente nos lembramos dos filmes fantásticos que fez retratando a guerra, a título de citação, A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan, Cartas de Iwo Jima, etc...

    Muitos filmes relatam como os homens voltaram da Guerra, transformados e muitas vezes até transtornados. Alguns nunca conseguiram sequer se recuperar. Os horrores da Guerra voltavam para assombra-los e eles simplesmente não conseguiam mais se desligar daquele momento. Outros voltaram e encontraram suas famílias e imediatamente viraram a chavinha, voltaram ao trabalho e ignoraram o background. O Documentário mostra muito bem a transformação desses 5 grandes diretores. É interessante ver como todos eles, apesar de terem tido muito sucesso na indústria antes da guerra, só realizaram suas obras primas, depois da guerra. É interessante pensar que todos eles passaram a fazer filmes muito mais humanos e sensíveis. Capra, por exemplo, um ano depois do fim da guerra, lançou “A Felicidade não se compra”, um dos filmes mais adorados e poderosos da história, William Wyler “Os melhores anos das nossas vidas” etc....

    O Documentário “Five Came Back”, é dirigido por Laurent Bouzareau, narrado por Merly Streep, e nos conta a história da segunda guerra através da vida de 5 grandes diretores, John Ford, William Wyler, George Stevens, John Huston e Frank Capra. Spielberg, Del Toro, Coppola, Greengrass e Kasdan são entrevistados, nesse documentário de 3 episódios, que segue a estrutura básica de primeiro, segundo e terceiro ato, discorre com fluidez, ano a ano da guerra, numa montagem ágil e gostosa de acompanhar. É um ótimo material sobre a Segunda Guerra Mundial, e um ótimo material sobre o Cinema. Um Original Netflix, realmente bom!
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