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Transgressor
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    Peaky Blinders é uma série britânica que conta os feitos e realizações dos irmãos Shelby’s, líderes da gangue Peaky Blinders. Os acontecimentos são concentrados em Birmingham, a partir das consequências imediatas da primeira guerra.

    A série foi criada por Steven McKnight. Um roteirista consolidado, que viveu seu grande momento em “Senhores do Crime” e vêm melhorando ainda mais seu trabalho, depois de realizar Locke (2013), Peaky Blinders (2013-Presente), e Taboo (2017-Presente), série que tem sido muito elogiada pela crítica e pelo público. Tom Hardy, aparentemente, tem um papel muito importante em todos os grandes trabalhos recentes de Steven Knight. É o protagonista de Locke, tem um papel muito interessante em Peaky Blinders e é um dos co-criadores de Taboo.

    Peaky Blinders é uma produção muito bem realizada. A ambientação pós-guerra, 1919-1920, é muito bem-feita por todo a direção de arte e design de produção em geral. Isso fica bem claro nos contrastes que o figurino estabelece entre as classes sociais, mostrando a elegância de uns e a miséria visual de outros. A série não oferece um mergulho completo na sociedade inglesa, mas os recortes sociais que a série vai nos dando aos poucos, refletem com precisão o estado em que as coisas andavam naquele momento. As metalúrgicas, os sindicatos, os trabalhadores e a alta sociedade, mas a série ainda melhora quando se dispõe a mostrar a violência e a forma como a Guerra transforma as pessoas.

    Thomas Shelby (Cilliam Murphy) talvez seja o melhor exemplo dos efeitos da Guerra. Ele sempre fora o mais inteligente dos irmãos, mas depois da Guerra, quando voltou para Birmingham, ele assumiu os negócios da família, a liderança da gangue e passou a traçar planos para o crescimento da família Shelby. Seu irmão mais velho, Arthur Shelby (Paul Anderson) e seu irmão mais novo John Shelby (Joe Cole), tiveram de aceitar a liderança do irmão e ajuda-lo em seus planos. Nesse sentido, Polly Shelby (Hellen McCrory), tia e conselheira da família Shelby, foi fundamental mostrando a todos que Thomas realmente deveria ser o líder.

    A série trabalha os personagens de uma forma muito cuidadosa. Os atores vão muito bem e você percebe a profundidade dos personagens, percebe as motivações, os defeitos, e isso tudo acontece de forma bem orgânica. A série, nesse sentido, tem personagens muito marcantes, a começar por Thomas Shelby, interpretado com maestria pelo ótimo Cilliam Murphy, indo para a 2º temporada temos Alfie Solomons, interpretado por Tom Hardy com monólogos e trejeitos muito bem entregues e na 4º temporada temos o vencedor do Oscar Adrien Brody, interpretando Luca Changretta, um mafioso italiano em busca de vingança. Peaky Blinders trabalha muito bem a inserção de novos personagens na trama, e bons personagens merecem bons atores e nesse ponto, o casting da série foi muito preciso.

    O subtítulo da série no Brasil, é: Sangue, Apostas e Navalhas. A Gangue Peaky Blinders faz o que é necessário para atingir seus objetivos, então isso tudo é verdade. Muito sangue, manipulação, jogos políticos e violência. A estrutura narrativa da série, segue um padrão. Cada temporada, apresenta um novo "inimigo", novas complicações e uma resolução.

    A Fotografia da série é uma das coisas mais belas pertencentes ao universo das séries. As composições são sempre muito bem construídas, a iluminação é muito bonita, principalmente utilizando os elementos industriais para dar alguns toques sutis, que fazem efeito na fotografia, como faíscas, por exemplo. A coisa é tão boa que eu aposto que se você colocar em qualquer episódio, e pausar tela a tela, você sempre vai ter um frame bem capturado e que, mesmo de forma sutil, comunica algo além, ajudando a história a fluir. Eu particularmente gosto muito de todo o tom visual da série. As cores não são saturadas. O visual é bem cinza, um pouco azulado. O que acaba conversando muito bem com toda a ambientação da série. É um momento em que a tecnologia ainda não está muito desenvolvida, Birmingham é uma cidade industrial, metalúrgica, as ruas ainda não são asfaltadas. Então essa decisão acaba ajudando a construir essa atmosfera "suja".

    Para os amantes da boa música, a série faz uma brincadeira que eu acho deliciosa. As realizações da Gangue Peaky Blinders, foram realizados no pós-guerra, a partir de 1919, mas a série coloca músicas da cultura pop posteriores aos eventos da série, brincando com essa ambientação muito fiel e esse elemento musical que aproxima a série de nós. Então nós temos muito Arctic Monkeys, Radiohead, Nick Cave, Jonny Cash, David Bowie etc..... Muitos desses artistas, seria sábios se tentassem algum acordo para ter algum momento da série como videoclipe oficial. Então, a música está tocando, as baterias, guitarras, os Peaky Blinders estão vindo em nossa direção, estamos vendo-os através de uma poça d’água e então eles passam por cima de nós, esbanjando elegância, charme, estilo e poder.

    Mas a série não tem nenhum problema? Tem! Tem um problema bastante sério, na verdade.

    O Protagonista Thomas Shelby (Cilliam Murphy) é construído durante toda a série, como um homem muito inteligente, astuto e manipulador. Um anti-herói elegante, carismático e que mantém as coisas sob controle. Nós vemos como ele constrói seus planos, lida com as adversidades e resolve problemas, sempre com uma racionalidade que beira o genial. Essa construção, acaba se tornando uma muleta para a série em diversos momentos.

    O roteiro vai metendo os personagens em situações complicadas, e mais complicadas, e mais complicadas, até que chega um momento em que os tirar dali é praticamente impossível. E então, o roteiro utiliza a muleta que ele construiu durante a série, e de forma absurda remove os personagens do perigo que estavam enfrentando.

    Esse é o maior problema de Peaky Blinders. Algumas soluções beiram o Deus Ex-Machina, com a desculpa de terem construído um personagem tão genial, quase onisciente. Você aceitou essa construção, então fazer o que?

    Mesmo com esse problema, a série continua muito boa. É um espetáculo visual, tem personagens muito complexos e tem atuações muito boas mesmo. Principalmente as três que citei acima, Cilliam Murphy, Tom Hardy e Adrien Brody. Esses três dão um show de atuação na série.

    Peaky Blinders é uma ficção histórica que conta os feitos, realizações e atos violentos da gangue, em busca de poder e influência. A série é muito bem produzida, é visualmente maravilhosa e tem uma ambientação que facilita sua imersão nesse mundo criminoso e extremamente sedutor.
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    Eu comprei Assombro, por causa do conto “Tripas”. Já havia lido o texto algumas vezes e sempre me diverti muito com as histórias que cercam esse conto. Existem relatos de pessoas que vomitaram durante a leitura, outras que desmaiaram e outras pessoas que levantaram e abandonaram a sessão de leitura com o autor. E sim, o conto tem esse poder.

    Tripas é um conto nojento, mas escrito com uma mão talentosíssima e o estilo característico de Chuck Palahniuk. Eu já tinha lido o conto várias vezes, mas então, por que comprar o livro, se esse era o único conto que me interessava?

    A respostá é: Chuck Palahniuk é um dos meus escritores preferidos e “Assombro” é um livro em que ele apresenta uma proposta diferente. Em Clube da Luta, Sobrevivente, No Sufoco, Climax, Condenada, Maldita.... Enfim, em seus romances anteriores, ele apresentava uma história e a desenvolvia. “Assombro” tem uma estrutura diferente de seus demais romances.

    Usando o subtítulo presente na capa do livro, “Assombro” é um Romance de histórias.

    Um anúncio no jornal diz:

    “Retiro de Escritores – Abandone sua vida durante três meses.

    Simplesmente suma. Deixe para trás tudo que impede você de criar sua obra-prima. Seu empreso, sua família e seu lar, todas as obrigações e distrações, deixe tudo em espera por três meses. Viva com gente que pensa como você, num ambiente que dá apoio à imersão total em seu trabalho. Comida e abrigo de graça para aqueles que se qualificarem. Aposte uma fração mínima da sua vida na chance de criar um novo futuro como poeta, romancista ou roteirista profissional. Antes que seja tarde demais, viva a vida que sempre sonhou.

    Vagas extremamente limitadas. ”


    18 pessoas respondem ao chamado. 18 pessoas completamente diferentes abandonam tudo e seguem para esse retiro. O problema é que as coisas não acontecem como o esperado, e a partir disso o livro se desenrola de forma sombria e brutal.

    O ponto estrutural que difere esse livro dos outros, é que cada uma das 18 pessoas, em algum momento da história, tem a sua chance de contar uma história. Então o livro se desenvolve com – Capítulo geral – Poema do fulano – Conto do fulano – Capítulo Geral – Poema do Sicrano – Conto do Sicrano – Capítulo Geral.

    É uma proposta muito interessante e Chuck aproveita muito bem disso para contar várias histórias diferentes, algumas claramente não renderiam livros, então qual a melhor forma de leva-las ao público?

    Particularmente, esse foi o livro do autor que eu menos gostei. Acho a estrutura muito interessante, gosto dos capítulos gerais, mas são poucos os contos que realmente me atraem. O começo do livro é bem interessante, causa um estranhamento, mas é positivo, o final do livro também é interessante e tem um ritmo muito bom, mas o meio do livro é um pouco enfadonho. São 505 páginas, então não é uma leitura tão dinâmica.

    Não se pode negar que é um livro de Chuck Palahniuk, pelo estilo da escrita, pelos temas abordados, pelo humor, mas eu senti falta do ritmo que sempre é presente nas obras do autor. Eu sou apaixonado pelo conto “Tripas”, e indico demais a leitura desse conto, entretanto, saiba que não é o melhor livro do autor, nem de longe.

    Assombro é um livro que tem muito de Chuck Palahniuk, mas que talvez falte o principal de Chuck Palahniuk.

    Um trechinho de "Tripas" para instiga-los a conhecer o trabalho do autor:

    " Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.

    Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.

    Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo. "

    Se você tiver estomago para continuar, é só procurar "Tripas - Chuck Palahniuk" no google. E compre o livro, óbvio ;)


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    Assistir Westworld é ter a certeza de estar assistindo uma produção gigantesca, arquitetada com muita inteligência e executada com perfeição. E nesse sentido, é impressionante como a HBO não cansa de se superar. Suas produções crescem cada vez mais, se tornam cada vez mais ambiciosas, cada vez mais corajosas e seus acertos se acumulam aos montes. Westworld é um retrato da soberania da HBO quando o assunto são as séries para televisão.

    O projeto arquitetado pelo incrível Jonathan Nolan, corresponsável por quase todos os trabalhos de Christopher Nolan, é impecável. A trama segue um ritmo muito cadenciado. As coisas vão acontecendo no tempo que precisam acontecer. As coisas são mostradas na hora que precisam ser mostradas. Os personagens vão sendo apresentados sem pressa. Jonathan Nolan, mantém o controle da trama e do ritmo com uma mão bem segura. A série transcorre de forma que você entende. Eles sabem absolutamente tudo o que estão fazendo.

    A premissa da série é fantástica. Westworld é um parque com o tema “Western”, onde pessoas pagam cerca de 40 mil para viver um dia no Velho-oeste. Essa experiência é completamente imersiva. Você pode fazer absolutamente tudo o que quiser, sem julgamentos e sem avaliações. O ponto é que o parque é dividido entre Humanos e Máquinas. Existem máquinas extremamente reais, com personalidade, background e com uma narrativa a cumprir. Isso significa que você é colocado em um mundo onde tudo, absolutamente tudo, tem uma razão de ser. Enfim, são inteligências artificiais realmente inteligentes, e isso é possível pelos avanços tecnológicos – A série é ambientada em 2050 – e pela genialidade do Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins) e Arnold, os dois idealizadores do parque.

    A partir dessa premissa, nós acompanhamos várias narrativas paralelas. Acompanhamos a narrativa de visitantes do parque, acompanhamos a narrativa de alguns personagens, acompanhamos a narrativa do Dr. Robert Ford tentando manter o controle do parque, mesmo em meio a pressão da diretoria, enfim.... Westworld é uma série gigantesca, com muitos personagens primários, muitos personagens secundários e muitas narrativas paralelas.

    São muitos personagens e muitas narrativas, o ponto interessante sobre isso, é que tudo parece ter uma base enorme, cada personagem tem um background, por mais coadjuvante que seja. Toda narrativa tem seus desdobramentos. Isso evidencia o trabalho muito bem feito de roteiro e construção de mundo.

    Outro ponto interessantíssimo, é a coragem da série em apresentar discussões e temas complexos, sem mastigar demais as coisas. A série apresenta uma discussão filosófica muito antiga, sobre a natureza da nossa realidade e o faz de forma orgânica, é o plot da história. Ela não para e desenvolve esse conceito, ela vai apresentando esse conceito aos poucos, até o final da primeira temporada, quando você está no chão juntando os pedaços do seu cérebro que caíram durante a explosão.

    Fica maçante ficar elogiando a produção da HBO, mas é inevitável. O trabalho que a emissora realiza é maravilhoso e em Westworld isso fica ainda mais evidente. A começar pelo Casting dessa série que talvez seja a coisa mais absurda que eu já tenha visto. Nós temos Evan Rachel Wood, Jeffrey Wright, Ed Harris, Anthony Hopkins, Thandie Newton, James Marsden, Jimmi Simpson, Ben Barnes, Tessa Thompson, Rodrigo Santoro…. Todos esses rostos muito conhecidos, dispostos entre personagens principais e coadjuvantes, todos funcionando muito bem, com atuações consistentes e importantes para a trama.

    Destaco Anthony Hopkins que esbanja técnica, experiência e mostra sua qualidade como Dr. Robert Ford, um homem misterioso, um papel cheio de nuances. Há um momento em que ele entrega uma sequência de expressões faciais incríveis, em poucos segundos. Destaco também Evan Rachel Wood, que na série interpreta Dolores, uma máquina que possui uma narrativa e precisa cumpri-la. Há um momento fantástico, onde um técnico do parque interage com ela e ela demonstra euforia, mas no momento seguinte ele emite um comando e ela precisa fechar o rosto imediatamente e chorar. E ela entrega exatamente isso. É fantástico. Por fim destaco Jeffrey Wright, como Bernard Lowe, um dos programadores do parque. E de verdade, a atuação dele é incrível. Ele convence demais, nos deixando muito confusos em um determinado momento da trama.

    A série possui uma ambientação de Western dentro do parque, então a fotografia traz vários elementos da fotografia típica dos westerns do século passado. Homenageia muito Sérgio Leone, Clint Eastwood etc....

    Um ponto interessante é a brincadeira que a série faz em sua trilha sonora. E aqui, temos o ótimo Ramin Djawadi, que também é o responsável pela trilha brilhante da 6º temporada de Game of Thrones. Ele realiza mais um trabalho fantástico na série, com uma trilha instrumental belíssima e com um elemento interessante de jogar nesse western, algumas músicas pop’s dos nossos tempos. Então temos Amy Winehouse, Adele, Radiohead, Nirvana etc..... É um pontinho interessante que você nota e acaba sendo bem divertido.

    Jonathan Nolan é o principal nome do projeto, mas a direção é bem dividida. O próprio Nolan dirige apenas dois episódios. Richard J.Lewis dirige 3 episódios e até Michelle MacLaren (The Deuce) também dá sua contribuição dirigindo 1 episódio.

    O que mais me chama atenção é a veia filosófica que a série apresenta. É uma premissa muito interessante, que nos é apresentada de uma forma muito inteligente. Westworld em sua primeira temporada é uma série fantástica. Um universo gigantesco que se abre para nós e é também, sem dúvida alguma, uma obra da cultura pop com potencial para transformar o universo das séries, através de sua proposta filosófica e complexa. CHEGA DE MEDIOCRIDADE!

    PS: O primeiro episódio da 2º temporada será transmitido no dia 22/04/2018
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    Escrita em um de seus piores momentos da vida, se não o pior, Um Pequeno Herói é a obra mais luminosa de Dostoievski.
    Narrada pelo próprio personagem sob ambientes festivos, claros, com sol, flores, arvores e natureza a história é um contraste a toda sua obra que por característica é muitas vezes densa, escura e claustrofóbica.

    E é nesse clima mais ameno que nosso personagem, ou melhor dizendo, nosso pequeno Herói passa por sua primeira experiência amorosa através de desejos ainda incompreensíveis a si mesmo.

    Segundo os gregos, Herói é quem se distingue por seu valor e por seus atos extraordinários!  Ora, como um menino de 11 anos pode ser um Herói numa atmosfera infestada, num antro social dos jogos e da trapaça e teoricamente já sem esperança?
    Há dois momentos que é de suma importância nessa obra que explicitará tudo isso a partir da ordem impulsiva e racional dos atos do garoto.

    Como já foi dito, os acontecimentos e até os atos mais repulsivos são descritos de maneira delicada e sutil, no entanto, num dado momento, o ácido autor é reconhecido numa descrição impecável dos ditos homens modernos...

    _''Era antes de mais nada um europeu, um homem moderno, com modelinhos de novas ideias, e que se vangloriava delas. De aparência, tinha cabelos escuros, era alto e particularmente corpulento, com suíças à moda europeia, rosto corado e presunçoso, dentes brancos como o açucar, e conduto irrepreensível de cavalheiro. Era tido como homem inteligente. É assim que, em certos círculos, se denomina a uma espécie peculiar de indivíduos que engordam a custa alheia, que não fazem absolutamente nada, que não querem fazer absolutamente nada, e que, por sua preguiça e ociosidade eternas, têm um pedaço de banho no lugar do coração.''
    (Pág. 22)_

    A parte esse momento de histeria ocasional, a doçura e sensibilidade nos conduzirão ao desfecho final do livro, onde o nosso herói se reafirma através de uma atitude digna de seu adjetivo e digno do título do livro.

    _"...e lágrimas, lágrimas doces, jorraram dos meus olhos. Cobri o rosto com as mãos e, tremendo todo como a haste de uma erva , entreguei-me sem defesas a esse primeiro desvelamento e revelação do coração, à primeira intuição ainda vaga da minha natureza. Minha primeira infância terminou nesse instante".
    (Pág. 62)_

    A última frase é impactante, reflexiva e de autoafirmação.
    Afinal, como definir melhor uma ação heroica se não a de sacrifício?
    Quando ele diz que perdeu a infância aludindo ao momento passado, onde, dentro da história ele toma a atitude que o proporciona tal título, é de uma beleza peculiar sua grandeza, já que para proporcionar um momento bom a um indivíduo, ele age como próprio mártir e assassina talvez o estágio mais feliz e puro da nossa vida: o da infância.
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    Um Lugar Silencioso é um filme simplesmente fantástico! Uma experiência de angustia, tensão e ansiedade completa. Um filme em que a técnica grita sua qualidade com a doçura de um sussurro. Um filme em que a execução consegue ser tão boa quanto a ideia. Sim! Um Lugar Silencioso é tudo isso e muito mais!

    Nosso mundo está tomado por criaturas assustadoras e letais. Nós não sabemos o que aconteceu para que essas criaturas surgissem, mas sabemos que o mundo todo foi tomado e sabemos também que essas criaturas são guiadas pelo som. Seu sistema auditivo é muito poderoso, então sua presa é descoberta a partir do barulho mais silencioso, e então não há muito o que ser feito. O mundo se tornou Um Lugar Silencioso, porque se existe alguma segurança, se existe alguma chance, essa chance está no silêncio.

    Essa proposta inicial é brilhante. Particularmente, amo ver essas tramas distópicas/apocalípticas. Sempre são tramas que provocam a contemplação, que provocam o pensamento no: “SE”. Isso é muito bom, porque estamos acostumados com uma vida segura, mas a verdade é que basta um pilar da sociedade ocidental ruir para que tudo venha abaixo, e diante de tudo o que temos visto, a questão é: Dá para duvidar?

    Trazendo  o PLOT da história outra vez para a conversa, o mundo está assolado por essas criaturas e todos precisam fazer silêncio se almejam sobreviver. Aproveitando isso, o filme entrega na maior parte do tempo o silêncio como trilha. Você consegue ouvir os passos na areia, consegue ouvir o ranger da madeira, o barulho do vento nas árvores, do rio. Você é levado para junto dessa família que tenta sobreviver e acaba sendo completamente imerso nessa tensão. O silêncio do filme é assustador, porque você sabe que uma daquelas criaturas assombrosas pode estar por perto. Você se coloca na ponta da cadeira e torce silenciosamente para que eles continuem em silêncio. A trilha sonora do filme é muito pontual e na maior parte do tempo dá espaço para os efeitos sonoros, que são extremamente precisos e aumentam muito a tensão sempre que estão presentes.

    As criaturas emitem um som espectral, um som redondo, que como um bumerangue faz uma volta completa por trás de você, tirando completamente a sua noção de espaço. Você não sabe onde a criatura está, de onde ela vem ou por onde ela vai chegar, mas você sabe que no momento em que aquele som, aquele maldito som surge, algo ruim está para acontecer, então você se encolhe na cadeira e reza aos deuses para que aquela família fique em silêncio.

    O começo do filme é cadenciado, mas ajuda muito você a construir uma identificação com os personagens. O começo também nos ajuda a entender a ambientação da história e o mais incrível, há um momento longo em que não existe nenhum tipo de diálogo, nem mesmo na linguagem dos sinais. Você fica se preparando, durante todo esse momento para o pior, e quando aquilo finalmente acaba, você respira e percebe que prendeu a respiração durante todo aquele tempo, talvez até tenha batido algum record, mas ninguém jamais saberá.

    O começo é cadenciado, mas é extremamente corajoso. A cena da ponte, que inclusive aprece nos trailers, é fantástica! E John Krasinsk, o “Tim” de “The Office”, nos mostra muita versatilidade, criatividade e confiança, porque todo primeiro ato é filmado com câmeras extremamente criativas.

    O Roteiro é maravilhoso, principalmente porque conseguiu incluir subtramas densas, em uma trama principal pesadíssima. Então o filme tem algumas camadas que são emocionalmente muito complexas e pesadas. O filme consegue acompanhar o roteiro, desenvolvendo os personagens e as tramas com muita naturalidade e eficácia.

    O desenvolvimento dos personagens é muito bem feito, o roteiro dá muito peso a cada um deles. Fica o destaque para a atuação das duas crianças, o garoto Noah Jupe, que trabalhou no filme “Extraordinário” e para a garota Millicent Simmonds, que é deficiente auditiva e pensando no contexto do filme, de trabalhar o silêncio e o som, ela com certeza somou muito para a trama com sua experiência de vida. John Krasinski é um velho conhecido da comédia, mas aqui, assim como Jordan Peele (Corra), entrega um filme fantástico de suspense, tensão, terror e horror. Sua atuação é boa, e sua direção surpreende, então fico feliz com seu trabalho como diretor e bastante ansioso por ver mais de Krasinski ocupando a cadeira de Diretor e entregando mais bons filmes.

    Agora, para finalizar a parte das atuações, eu gostaria de gritar: EMILY BLUNT O QUE DIABOS VOCÊ FEZ!? Meu Deus! A atuação dessa mulher é INCRÍVEL!

    Emily Blunt tem uma atuação memorável em Um Lugar Silencioso. Há uma sequência insana de cenas em que ela entrega um milhão de expressões faciais, entrega uma dor sobre-humana, entrega uma mãe querendo proteger os seus filhos, e faz tudo isso de uma forma extremamente real e crível. Eu quero muito falar sobre a cena em si, mas seria uma spoiler e eu odeio spoilers, então por favor vejam esse filme e aplaudam Emily Blunt!

    Agora para finalizar mesmo, eu gostaria de ressaltar o quão bom é esse filme. Um Lugar Silencioso é a união de um ótimo roteiro, com muito talento na direção e em toda a parte técnica do filme, desde a edição de som, design de som, direção de arte, até as atuações muito consistentes e claro Emily Blunt dando muito peso para o filme com sua atuação.

    É um filme que pode e provavelmente vai te emocionar, principalmente no terceiro ato, quando o filme ganha um ritmo alucinante e ganha também uma carga dramática bem pesada com o desenvolvimento de uma das subtramas. Mas, também é um filme que pode te impressionar tecnicamente, e se você prestar bastante atenção, talvez até se apaixone por esse lado mais técnico.

    Um Lugar Silencioso te coloca na ponta da poltrona. Te deixa tenso do início ao fim e por tudo isso, sem dúvida alguma, é um dos grandes acertos que vi no cinema nos últimos anos.

    Se eu puder te dizer mais uma coisa: VEJA ESSE FILME NO CINEMA!
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    Misto-Quente é uma das obras mais importantes de Charles Bukowski. Foi importante para ele durante o processo de escrita, e sem dúvida alguma é importante para nós, pois o livro trata de uma época de sua vida que até então era pouco conhecida, mas que sem dúvida foi determinante para o escritor e homem que Charles Bukowski veio a se tornar.

    O livro percorre os períodos de infância, adolescência e juventude de Charles Bukowski. Começando com uma simples memória infantil, e indo até a tarde do bombardeio de Pearl Harbor. Dá primeira memória relatada ao bombardeio, seguem mais de 300 páginas e vários anos de uma vida complicada, dado a quebra da bolsa americana em 29, as espinhas durante a adolescência, seu pai autoritário e maluco e suas várias particularidades que o deixavam quase sempre alheio aos outros.

    O protagonista do livro é Henry Chinaski, alter-ego do autor. Até por isso o livro não é oficialmente uma autobiografia. Seria mais um romance com toques autobiográficos, pelo menos é o que está escrito na quarta capa do livro.

    Eu ouvi centenas de vezes que deveria ter começado minha leitura de Bukowski por Misto-Quente, e concordo com isso. É um ótimo livro para ambientação do leitor ao estilo de Bukowski de contar histórias e de escrever. Lendo Crônicas de um amor louco, o começo pode realmente ser um choque, entretanto em Misto-Quente você vai se ambientando e entendendo como o autor se formou enquanto escritor.

    O livro é escrito de forma fantástica. É divertido, pois carrega uma simplicidade doce de infância, ao mesmo tempo em que é cru e duro ao nos mostrar a relação de Henry com seu pai. O livro tem um dos relatos mais profundos e honestos sobre a infância e adolescência, sem floreios, sem exageros, sendo sempre bastante real com os dilemas e raivas vividos pelo autor e que também são, de certa forma, típicos dessa fase.

    A forma como a narrativa progride é brilhante. Quem deseja ser um escritor, precisa entender a forma como o livro flui e as passagens de tempo são orgânicas e naturais. É uma obra complexa, porque foi escrita muitos anos depois dos fatos narrados terem acontecido, então existe toda aquela dificuldade de retratar memórias antigas, e nesse sentido a escrita parece ignorar esse distanciamento, pois a leitura é tão calorosa que a impressão é de ter lido um texto escrito em tempo real.

    Bukowski normalmente não é reconhecido como um grande escritor, tecnicamente falando, entretanto não vejo nenhuma crítica que possa ser feita a obra. Ela é extremamente pessoal e envolvente. É uma leitura agradável e o mais importante, é uma obra que nos aproxima muito do autor.

    As pessoas que costumam dizer que Bukowski era só um velho bêbado e safado, realmente não entenderam absolutamente nada da obra do autor. Misto-Quente provavelmente esclareceria muito as coisas, e não falo como se os traumas de sua infância e adolescência o tornassem um velho coitado por quem devemos ter pena, pelo contrário, esses traumas e dificuldades o forjaram e o tornaram ainda mais resistente as pancadas da vida. Resistente como muitos de nós jamais seremos.

    Misto-Quente é uma obra fantástica, de um autor fantástico.

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    Eu não sou o tipo de pessoa que desiste de uma série ou para no meio de um filme. Por pior que seja, eu continuo assistindo até o final. Se isso é bom ou ruim, eu não sei, só sei que desisti de ver Bojack Horseman três vezes antes de entender a profundidade e o impacto dessa obra.

    Eu larguei Bojack Horseman três vezes porque eu não estava no momento certo para assistir a série. As discussões propostas não faziam tanto sentido, eu não me conectava com os personagens, achava o enredo enfadonho.... Hoje, tendo terminado a quarta temporada eu posso dizer com o maior prazer do mundo: Bojack Horseman é uma das minhas séries preferidas!

    Em um momento eu abandono a série e em outro estou colocando-a entre as minhas séries prediletas. É estranho né!? O ponto que quero chegar nesse primeiro momento, é: Existe um momento ideal para ter contato com determinadas obras. Eu tentei ver Bojack em um momento em que tudo ia maravilhosamente bem. Não funcionou. Tentei ver Bojack em um momento de muitos questionamentos, incertezas, medos e fui completamente absorvido pela trama, senti cada impacto, participei de cada discussão, me identifiquei.

    Basicamente, a série trabalha a vida de Bojack Horseman, um ator que protagonizou uma série na década de 90, e agora vive à sombra daquele sucesso, amargando uma vida depressiva, regada a álcool, drogas e sexo casual etc....

    É importante dizer que estamos falando de um desenho, uma animação. Isso me espanta – de maneira positiva -, porque é algo considerado infantil trabalhando temas sérios, temas “adultos”, temas provocativos.

    Muitas coisas podem ser ditas sobre Bojack Horseman. É uma série divertida, tem ótimos personagens, um elenco muito bom, referências a cultura pop, enfim, a série como entretenimento puro cumpre muito bem o seu papel. O que me chama atenção mesmo é a forma como a série se desdobra em várias camadas.

    Bojack Horseman é um personagem completamente ferrado. Quero dizer, internamente ele é um caos completo. Tem muitos problemas com seu passado, com a relação com seus pais. Muitos de seus dilemas atuais têm relação com esse passado. A forma como Bojack lida com as pessoas é interessantíssimo, porque ele sempre parte do pressuposto de que em algum momento ele vai estragar tudo, o que o faz evitar ter relações profundas com qualquer pessoa. Enfim, Bojack tem essas camadas que dão ao personagem um ar extremamente real.

    Ao mesmo tempo que o protagonista, Bojack, vai mostrando suas camadas, a série vai evoluindo seus núcleos, de forma que os personagens coadjuvantes também vão ganhando peso. Com o passar dos episódios e temporadas os coadjuvantes vão se desdobrando e mostrando como também são ferrados. Mostrando que também tem medos, inseguranças e traumas.

    Esses elementos “psicológicos” engrandecem demais a série. Cada personagem colabora dando mais profundidade, dando mais peso a trama. Nesse sentido, temos que agradecer muito ao criador e roteirista Raphael Bob-Kaksberg, que desenvolveu personagens complexos, tridimensionais. Personagens com bagagem, história. Personagens com personalidade.

    Eu amo demais a forma como a série evolui. É uma das escaladas mais bem-sucedidas que eu já vi! É impressionante como a série consegue trabalhar o humor muito bem, sem ficar preso a esse elemento. Como eu disse acima, a série consegue trabalhar problemas muito adultos, muito sérios. A personagem da Princesa Carolyn (Amy Sedaris), por exemplo, ganha muito peso quando a série passa a trabalhar os seus problemas interiores. Quero dizer, ela é uma mulher que já passou dos 30 e não tem filhos. Ela quer ter filhos, mas já está tendo de lidar com sua parte biológica, então ela amarga esses questionamentos, esse medo de não realizar um sonho. Enfim....

    Outro elemento interessantíssimo presente na série, é a crítica a Hollywood. Uma crítica muito séria e importante ao universo das celebridades. Ao universo hollywoodiano. A forma como essa indústria funciona e trata as pessoas, seus mecanismos. Nesse sentido a série se mostra pontual, porque estamos vivendo mais uma revolução em Hollywood com a sucessão de escândalos sexuais que estão vindo à tona.

    Eu abandonei a série e depois fui completamente absorvido. Me emocionei diversas vezes, dei ótimas risadas e em muitos momentos fui provocado a refletir. Creio que não falte nada a Bojack Horseman enquanto série, porque ela concretiza muitos mais do que promete, nos dando uma escalada progressiva que vai de uma boa primeira temporada à uma quarta temporada fantástica!

    Bojack Horseman é a prova de que existe um momento certo para algumas coisas. Eu assisti na hora certa e me identifiquei demais. Quem sabe não seja a sua hora de assistir Bojack Horseman?

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    Bingo: O Rei das Manhãs é um filme inspirado na vida de Arlindo Barreto. O nome talvez não te lembre absolutamente nada, mas isso só acontece porque esse homem não era famoso por ser Arlindo, era famoso por ser o BOZO.

    O filme de Daniel Rezende não conta a história do Bozo, conta a história de Arlindo Barreto, o homem por trás do palhaço. Mas não é uma cinebiografia, é um filme inspirado na vida deste homem. Um homem que sabia do que era capaz, um homem que lutou pela fama, pelos holofotes e no meio de toda essa luta se perdeu por caminhos turvos. O filme bebe da história de Arlindo Barreto e nos apresenta o personagem ficcional Augusto Mendes, o BINGO.

    O Bozo é um dos grandes personagens da história da Tv Brasileira. Marcou toda uma geração, é um ícone dos anos 80. A história do palhaço e seu talento para divertir já é muito conhecida. Daniel Rezende (Diretor) e Luiz Bolognesi (Roteirista) decidiram então contar a história do homem por trás do nariz de palhaço. Uma história cheia de camadas e reviravoltas, uma história desafiadora e que tinha poder para se transformar num grande filme.

    Uma história desafiadora precisa de pessoas que amam desafios para ser contada. É aí que entra Vladimir Brichta, um ator conhecidíssimo por seus papéis em novelas e seriados do canal 5. A história havia sido pensada para ter como protagonista Vagner Moura, um ator que já teve grandes atuações no cinema, um ator conhecido justamente por ter grandes papéis no cinema. Outra vez, É aí que entra Vladimir Brichta. Sua atuação em Bingo é simplesmente fantástica. É memorável. A história é realmente desafiadora, porque o personagem tem vários pontos diferentes de contato. Há o “Augusto” com seu filho, o Augusto como Bingo, o Augusto com sua mãe, o Augusto com sua produtora. É interessante assistir ao filme e notar a naturalidade com que Vladimir flutua por dentre esses pontos de contato, gerando e reagindo de forma orgânica, como se aquela história fosse a sua história, como se ele tivesse vivido cada um daqueles momentos. Um ator que queria ir além e encontrou no personagem a chance de transcender tudo o que já havia feito em uma carreira de sucesso. Bingo é também o carimbo na ficha de Vladimir Brichta, um carimbo que diz: Este é um grande ator. Um ator que pode realizar coisas grandes.

    O casting feito para o filme foi impecável. As escolhas funcionam maravilhosamente bem. Eu gostei muito da atuação da Leandra Leal, fazendo a produtora Lúcia, uma mulher doce, mas firme em seus posicionamentos, uma mulher que na década de 80 foi extremamente importante por ocupar um espaço que era majoritariamente masculino. Gosto muito do personagem Vasconcelos, interpretado por Augusto Madeira. Um personagem pontual, que traz um tom cômico, mas também é um dos grandes pivôs da transformação do personagem de Vladimir Brichta. O filme ainda conta com Emanuelle Araújo, interpretando a Gretchen em seu início de carreira na tv, Pedro Bial como um dos chefões da tv rival e Domingos Montagner com uma atuação pontual e muito importante.

    A história, como eu já disse, é desafiadora. Uma história que poderia e gerou um grandioso filme, mas é óbvio que uma boa história precisa cair em boas mãos e felizmente caiu em ótimas mãos! Daniel Rezende, o diretor do filme estava dirigindo o seu primeiro filme. Exatamente, Bingo é a obra de estreia de Daniel Rezende como diretor, dá pra acreditar? Tudo bem, Daniel Rezende já foi até mesmo indicado ao Oscar, sabia? Daniel é um dos grandes montadores. Trabalhou na montagem de Cidade de Deus, Tropa de Elite, Árvore da Vida, trabalhando com grandes nomes como Terrence Malick, Fernando Meirelles e José Padilha. Sua carreira como montador é brilhante e não tenho medo de dizer, com Bingo ele deu um belíssimo pontapé em sua carreira como Diretor.

    Bingo O Rei das Manhãs é um espetáculo técnico. O filme tem um ritmo muito constante e muito atraente. É difícil pensar em fazer qualquer outra coisa enquanto se assiste ao filme. Ele tem aquele algo a mais que te prende completamente. A narrativa avança num ritmo frenético, as câmeras contam a história, a música conta a história, as luzes contam a história. Bingo é um belo exemplo de como um filme deve utilizar toda a linguagem cinematográfica em prol da história que está contando. A fotografia, a iluminação, a música, tudo converge para potencializar a história que está sendo contada. Isso é brilhante e isso mostra o belo trabalho do Diretor Daniel Rezende e de sua equipe!

    Minha única crítica fica aos minutos finais do filme, acho que alguns minutos foram adicionados para contar um restinho de história que é importante, mas que talvez não coubesse dentro do filme. A sensação é que talvez o filme pudesse ter acabado alguns minutinhos antes, algumas poucas cenas antes. Mas, é só isso, é só essa gordurinha. O filme não tem mais nada que eu possa apontar de forma negativa.

    Bingo, sem dúvida alguma é um dos maiores presentes que o povo brasileiro poderia receber. É uma pena não ter conseguido seu espaço no Oscar, mas isso de forma alguma diminui os méritos desse belíssimo filme. Daniel Rezende, meus parabéns. Vladimir Brichta, meus parabéns, Luiz Bolognesi, meus parabéns. A todos os envolvidos, meus parabéns.

    Bingo é um lembrete da beleza e qualidade do nosso cinema. É um lembrete do que nós podemos fazer, das histórias que podemos e vamos contar!

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    O que um homem que esteve na guerra pode falar sobre a guerra? O que um homem que sobreviveu a um dos maiores bombardeios da segunda guerra pode falar sobre a segunda guerra? Kurt Vonnegut esteve na guerra e sobreviveu ao bombardeio de Dresden – bombardeio que matou 135 mil pessoas. O dobro de mortes de Hiroshima −, graças a um matadouro subterrâneo que se manteve íntegro durante as explosões. Kurt com certeza tinha um milhão de coisas para falar sobre a guerra, e em Matadouro 5, o livro mais importante escrito pelo autor, nós encontramos alguns de seus pensamentos e experiências diante do horror da guerra. Coisas da vida.

    Matadouro 5 é considerado por todos como uma das obras mais importantes e relevantes do século XX. O livro foi publicado originalmente em 1969 e até esse período o mundo já tinha experimentado uma porção brutal de desgraças. Genocídios, holocaustos, bombardeios cruéis. Tentativas de autodestruição. Coisas da vida. Nesse sentido, Matadouro 5 nos mostra um pouco dos “bastidores” da guerra. Nos conta um pouco da história daqueles milhares e milhares que morreram e foram esquecidos. Coisas da vida.

    Apesar de tudo isso, o livro não é uma narrativa sobre a Guerra e toda a sua ação. Billy Pilgrim vai ao passado e ao futuro, mas o livro também não é uma narrativa de viagens no tempo, e também não é sobre os seres Tralfamadorianos que abduziram Billy. O livro tem um pouco de tudo isso. A narrativa na verdade é sobre as pessoas em tempos de armas, em tempos de guerra. As mutações que as pessoas sofrem e enfrentam, a forma como a moralidade, as deficiências e até a estupidez são compreendidos e principalmente sobre os restos que sobram das pessoas após a guerra. Coisas da vida.

    É uma narrativa interessante e bem diferente. Não há apenas uma linha temporal, muitos personagens são apresentados e há um humor ácido e bem sutil, principalmente no próprio Billy Pilgrim que é o protagonista do livro e que, por não ser muito firme, acaba sendo também a grande vítima durante a narrativa. Sua vida acontece meio que na base dos empurrões. Seu casamento, sua vida como soldado, sua carreira. Tudo vai acontecendo e ele vai sendo levado. Há um humor bastante triste no personagem e na guerra descrita por Kurt Vonnegut, a partir dessa perspectiva bem particular.

    Matadouro 5 é um livro que influência toda uma geração de escritores, com seu humor sutil e ácido, com sua narrativa provocativa e certeira. Um livro cheio de personagens repulsivos, mortes que jamais serão lembradas e experiências de vida e morte durante a guerra. O protagonista do livro é Billy Pilgrim, mas a Guerra sua ingrata coadjuvante, se mostra o tempo todo como uma opressora máquina de morte.

    " - Sabe.... nós tivemos de imaginar a guerra aqui. e imaginávamos que ela estava sendo travada por homens mais velhos, como nós. Tínhamos nos esquecido que as guerras são travadas por bebês. Quando vi aqueles rostos imberbes, foi um choque. "Meu Deus, meu Deus", disse a mim mesmo. "É a Cruzada das Crianças"."
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    Desejos banais,
    Individuais,
    De folga, 
    Na moda,
    Dormir tarde,
    Gozar de madrugadas fatais e imorais,
    Como aquela bela mulher que te fez sofrer
    Mas hoje, não mais!

    Dançar desempregado,
    Amar desenfreado,
    Observar o fim do mundo,
    Imundo,
    Pela janela do apartamento ao lado
    Em delírio,
    Tal De Niro em táxi
    Onde nada é normal
    E irreal é o dólar almoçando o real
    Diante do nosso quintal

    Mas hoje é festa...
    Em meio aos escombros,
    Barulhos, putas
    Amigos, parceiros 
    Plantaremos flores sob o caixão do presidente queimado
    Ao vivo,
    Transmitido e narrado por Galvão Bueno,
    Que vive em Miami, de sobrenome espanhol
    Espetáculo mundial
    Felicidade Brasileira
    De um jeito
    Ou de outro
    O hexa é nosso, Deus queira!
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