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Transgressor
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    Trama Fantasma é a mais nova obra de Paul Thomas Anderson, um dos diretores mais respeitados e elogiados pela crítica. O filme conta com Daniel Day-Lewis como protagonista, neste que segundo o ator, foi seu último filme.

    Reynolds Woodcook (Daniel Day-Lewis) é um grande estilista, que com a ajuda de sua Irmã Cyrill (Lesley Manville), produz vestidos para grandes personalidades, para a nobreza e para a elite britânica. Reynalds obtém sua inspiração das mulheres que conhece. Esse ciclo de conhecer uma mulher e manda-la embora é comum na casa Woodcook, entretanto com Alma (Vicky Krieps), a situação muda totalmente.

    O filme é dirigido por Paul Thomas Anderson. Não há muito o que dizer sobre questões técnicas do filme, a não ser ressaltar sua perfeição. Paul Thomas Anderson guia seus filmes como um maestro, utilizando todos os elementos do audiovisual para contar suas histórias. Utiliza-se da música e do silêncio, principalmente do silêncio. Em Trama Fantasma, ele eleva o som dos efeitos sonoros para que nos sintamos como Reynolds, ouvindo Alma fazendo todos os barulhos possíveis enquanto está preparando sua torrada matinal. A direção de PTA é pensada, é planejada, é segura. Em Trama Fantasma, ele entrega mais um filme tecnicamente impecável.

    A história em si é pequena, quero dizer, Reynolds é um gênio no que faz. As mulheres entram em sua vida para inspira-lo, e em troca recebem sua frieza e grosseria. Não é um personagem fácil. O plot da história é definido quando Alma passa a querer mais do que somente trazer inspiração a Reynolds. O filme a partir disso, se desenvolve com muitos diálogos, alguns até bastante engraçados, além da interação se intensificar entre Alma e Cyrill, uma relação de poucas palavras, mas de um "ciúme" pungente que está presente em todas as cenas que as duas estão compondo o quadro.

    Daniel Day-lewis é fantástico como sempre. Entrega um personagem rude, áspero, chato, e o faz como ninguém mais poderia fazê-lo. É importante ressaltar a atuação de Leslie Manville, como Cyrill, a irmã de Reynolds. Ela tem uma atuação muito interessante, trabalhando o silêncio, e mesmo sendo uma coadjuvante de suporte para o protagonista, ela vai muito bem e em alguns momentos se destaca bastante, principalmente quando interage com Vicky Krieps. Vicky Krieps tem uma atuação muito sólida. Seu rosto quase inexpressivo, seu sorriso sem mostrar os dentes, sua forma de lidar com Cyrill e com o próprio Reynolds, sua atuação conversa com a personagem e com o tom do filme, portanto, não a vejo como um elemento que destoa dentro dessa ópera de Paul Thomas Anderson.

    É importante lembrar que o filme se passa em 1950, e Paul Thomas Anderson demonstra seu zelo com a obra mais uma vez, ao nos fazer sentir a ambientação e a época do filme. A iluminação amarelada de inúmeras cenas, traz esse peso “envelhecido” ao filme, facilita a ambientação, bem como as cores esmaecidas.

    Trama Fantasma é um bom filme. Um espetáculo técnico e visual. Uma história pequena, onde os personagens se mostram camada a camada. Paul Thomas Anderson nos dá um vestido costurado por suas próprias mãos, com o maior cuidado do mundo, sendo ajudado por Daniel Day-Lewis. Cada ponto dessa costura está em seu devido lugar. Palmas a Paul Thomas Anderson, e que os Deuses façam Daniel Day-Lewis adiar sua aposentadoria.

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    Efiele – Camarosa (30 de Janeiro – 2018)

    22 Minutos.
    Auto-tune.
    Subjetivo.
    Rap;
    Trap;
    Alternativo!
    Sensações.
    Auto-tune.
    Minimalismo...

    São alguns breves adjetivos para definir o também breve EP de Efieli, produtor e agora MC de Santa Catarina, representando uma espécie de submundo ‘’sulístico’’, nos apresentando um Rap alternativo, ora elegante, ora sujo, ora sensível, ora tudo junto.

    Produção musical feita sob medida numa atmosfera que não apenas combina com a temática e as respectivas entonações de voz, mas que se acasalam a cada palavra desferida, como se fosse criada minuciosamente do 0 num BPM automático...

    Efieli Já produziu diversos trabalhos do Makalister, o maior expoente do Sul (ouçam Makalister!).

    Efieli também já produziu Maydana, potente voz de Santa Catarina e que já rimou com Makalister (ouçam Makalister – Flores de Galeano!)

    Efieli rima/canta com Makalister e Maydana na última faixa (hehe).

    Não vim aqui decifrar enigmas e nem entender o nome do EP, afinal isso tiraria toda a graça dessa experiência que garanto ser nova a qualquer curioso que der play. Aquiete-se num canto, coloque o som numa altura em que incomode seus vizinhos ou sua família, deite na sua cama rosa ou no chão e deixe-se levar... São 22 minutos de um trabalho que parece, a cada faixa, descrever um pedaço específico de dias específicos, mas que giram em torno de um sentimento só: desejo!

    Ouça no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Y1TMa-1Djg8

    Ouça no spotify: http://bit.ly/camarosapl

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    Mc Igu – Subliminar (5 de Fevereiro - 2018)

    Em ascensão nos últimos anos, Mc Igu lançou o que eu considero seu trabalho mais estável. Mesmo com um número elevado de faixas, ‘’subliminar’’ é consistente em sua proposta e agradável de ouvir do início ao fim.

    É interessante salientar que essa mixtape foi inteira produzida por ele mesmo e pelo Rare Kidd, outro nome interessante da cena trap.
    Sobre as participações: Além de membros da ‘’Recayd Mob’’ (sua banca), Diego Thug, que faz parte do Bonde da Stronda está presente em uma das 17 faixas.

    Um adendo sobre o trabalho: se procuras o famoso ‘’rapi di mensagem’’, o play não é recomendado, afinal a intenção do Trap/Plug nunca foi essa e aqui não é diferente. A única faixa que trata de assuntos que são considerados importantes e com críticas/protesto é a primeira faixa, titulada ‘’7pm in Mariana’’, no mais, encontraremos beats pesados com 808 em tempo duplo, festas, ostentação e ego. Além, é claro, da peculiaridade do Igu em trazer referências de animes que ele incorpora de maneira engraçada em seus sons.

    Ouça no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=XpKyJnR5qzQ&list=PLkaPNl7GNjBR8zzpwyZ4L4OvK7zlPbozQ

    Ouça no spotify: https://goo.gl/fQfkcz

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    Textos por: Gustavo Pauletto
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    Três anúncios para um Crime é um filme forte e pesado. Não é uma história investigativa. É uma história sobre pessoas, sobre personalidades, sobre feridas que custam a se curar, feridas que talvez nunca venham a se curar, é um filma sobre a dor.

    Sete meses se passaram desde a brutal morte de sua filha. A polícia não encontrou o culpado e nem parece disposta a fazê-lo. Inconformada com o descaso e ineficácia da polícia, Mildred Hayes (Frances McDormand) decide alugar três outdoors, que a partir de então passam a estampar uma crítica a polícia e mais diretamente ao Xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson), com o objetivo de chamar a atenção da polícia e da mídia para o assassinato brutal de sua filha, e a ausência de justiça.

    É uma história simples, que como disse acima, nem trata da investigação em si - exceto em um único momento. O filme se desenvolve através de atuação fantásticas e de personagens com arco, com background, personagens tridimensionais, o que aponta para Martin MacDonagh, roteirista e diretor de Três Anúncios para um crime, que fez um excelente trabalho no desenvolvimento dos personagens e da trama.

    O filme prende do início ao fim. É interessante que o roteiro não tenta abraçar o mundo, pelo contrário, a trama é desenvolvida ali, naquela cidadezinha cheia de fofoca e hipocrisia, é um plot simples, desenvolvido com humildade e com uma maturidade fascinante. O filme prende porque tem personagens fortes, tem uma tensão que escala brutalmente, mas que é balanceada com uma dose de humor na medida certa.

    O filme nos apresenta as implicações da atitude de Mildred o tempo inteiro, e a cada nova ação, de cada personagem, nós temos novas implicações e consequências. Isso dá ainda mais peso e credibilidade a obra, pois ninguém aguenta mais filmes em que o personagem saí da mesma forma que chegou, sem mudanças, sem arco, sem variações. Três anúncios brinca o tempo todo com a personalidade de seus personagens, brinca de uma forma inteligente e que nos faz flutuar entre o amor, o ódio, o medo, a empatia e a antipatia. Brilhante trabalho de roteiro.

    Para dar mais corpo ao que venho dizendo, quero ressaltar o excelente trabalho dos coadjuvantes. São vários e todos com uma decência digna de aplausos, a começar pelo ótimo Woody Harrelson, que nos dá um Xerife experiente, que carrega uma dor enorme, por uma questão particular que você verá no decorrer do filme, e carrega a tristeza de não conseguir ajudar Mildred a encontrar o assassino de sua filha. Woody Harrelson tem uma atuação fantástica, seu personagem tem aquele velho humor negro, que misturado a dor, constrói um personagem que nos cativa, mesmo não correspondendo ao estereótipo do “Bom policial”. Sam Rockwell nos dá Dixon, um policial agressivo e meio pirado, que age por impulso e até é comentado na cidade como racista. O arco de Dixon é muito bacana e há também a relação dele com sua mãe, que também funciona muito bem para o desenvolvimento do personagem. Temos Lucas Hedges, que vai muito bem como filho restante de Mildred, Peter Dinklage, também vai muito bem como um admirador de Mildred, John Hawkes vai bem como ex-marido pirado.... Enfim, você já entendeu, o corpo de atores de Três Anúncios para um Crime é brilhante, e palmas para Martin McDonagh, que escreveu esse ótimo roteiro.

    Por fim, gostaria de falar de Frances McDormand, que nos dá Mildred Hayes, uma mulher durona, que está cansada de esperar passiva pela ação dos outros. Uma mulher que sofre o tempo todo pela perda da filha, e principalmente por não ter conseguido construir uma boa relação com ela. Meu, o que essa mulher, Frances McDormand, faz, é um absurdo! Uma atuação brilhante, o texto flui de uma maneira incrível, com virgulas, expressões, trejeitos. Você sente o ódio de Mildred, a dor de Mildred, o sarcasmo de Mildred, você sente tudo através das expressões faciais de Frances McDormand, que entrega uma mãe arrasada, uma pessoa quebrada pela morte, uma mulher com rugas. Frances McDormand nos dá a dor de uma mãe que perdeu sua filha, e faz isso de uma forma que eu jamais havia visto anteriormente.

    Três Anúncios para um Crime é um filme fantástico, de personagens vivos. Uma história simples contada da melhor forma possível. E que reverenciemos Frances McDormand por sua belíssima atuação.
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    Minha tara por títulos não tem data para terminar e Hunter S. Thompson caprichou nesse, não foi?

    Paul Kemp, é um jornalista americano que desembarca em San Juan, Porto Rico, buscando fugir da loucura que vivera em seus últimos anos, principalmente quando morou em Nova York. Mal sabia ele, que em San Juan, trabalhando no Daily News, ele definitivamente não encontraria essa paz, pelo contrário.

    Paul desembarca em uma San Juan caótica, para trabalhar em um jornal caótico e faz as piores amizades possíveis. Paul, Sala e Yeamon, reuniam-se sempre no Bar do Al, e o fortalecimento dessa amizade, culminou em cenas engraçadíssimas, diálogos brilhantes e muita confusão, muita confusão mesmo.

    San Juan era um caos político. Comunismo, os Estados Unidos tentando exercer algum domínio sobre os bastidores, o jornal comandado por Zimburger, um “ex-comunista” que tinha a missão de ser o baluarte americano no país, empresas que tentavam construir um monopólio turístico em San Juan, e de uma forma ou de outra, Kemp conseguiu se meter em todos os tipos de conflito possíveis, desde os políticos, ao turismo, jornal e amor.

    Hunter S. Thompson tem uma escrita fluída, e suas descrições são imersivas, sem ser enfadonhas. A leitura é rápida e o livro todo é uma sucessão de cenas em um ritmo desenfreado e prazeroso. Paul Kemp vai narrando suas experiências, desgraças e angustias com bastante humor e sarcasmo, de forma que ao te conquistar, te coloca como um espectador que só deseja fazer as mesmas merdas divertidas com a própria vida.

    O livro é regado a Rum do começo ao fim, e a união de Kemp, Sala, Yeamon e sua bela namorada, Chenault, dão o ritmo de toda a história. Kemp fica pouquíssimo tempo sozinho, e você acaba se apaixonando por cada um dos personagens, desde os que tem mais protagonismo, aos que são meros coadjuvantes. Hunter S. Thompson tem um êxito brilhante, ao nos apresentar os personagens de forma tão eficaz, que mesmo as míseras linhas ditas sobre um determinado personagem, são interessantes o suficiente para nos fazer torcer e vibrar com cada nova ação desse bendito ou maldito personagem.

    San Juan é uma cidade belíssima, e muito quente, tanto climaticamente falando, quanto culturalmente e politicamente falando. Thompson tem êxito em explicitar para nós cada uma dessas minucias da cidade, de forma que, em diversos momentos, a imagem é tão real que podemos sentir o calor nos fazendo soar, podemos ver o corpo nu de Chenault e podemos dançar no carnaval de São Tomás.

    O livro é maravilhoso e a escrita de Hunter Thompson é uma das coisas mais imersivas que vi em toda minha vida de leitor. É um livro que lerei outras vezes, sem dúvida. São personagens que me lembrarei por muito tempo, sem dúvida. É uma obra prima, sem dúvida.

    Para finalizar, fica a indicação do filme. Temos Jonny Depp interpretando nosso querido Paul Kemp, e o filme acaba sendo bem legal. Vale a pena assistir, mas leia o livro! Leia o livro!

    Rum: Diário de um Jornalista Bêbado.
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    Corra! É o primeiro filme dirigido por Jordan Peele, e conta com o excelente Daniel Kaluuya como protagonista. O filme aborda principalmente a temática do racismo, e obtém sucesso, pois o faz isso de uma maneira bem inédita.

    Chris Washington (Daniel Kaluuya), vai conhecer a família de sua Rose Armitage (Allison Williams), sua namorada a mais ou menos 5 meses, mas essa visita acaba se transformando em uma série de situações estranhas e assustadoras.

    Em uma das cenas iniciais do filme, Chris pergunta logo de cara a Rose, se ela já havia contado aos seus pais que namorava um cara negro, e ela desconversa dizendo que seus pais são tranquilos e abertos. Aqui, Jordan Peele nos aponta uma direção.

    Há uma outra cena, em que, durante a viagem eles acabam batendo em um cervo na estrada e um policial começa a encrencar com Chris. Rose, como uma boa namorada, se mete no meio criticando a atitude do policial. Aqui Jordan Peele nos aponta outra direção.

    Quando chegam, Chris começa a lidar com um racismo disfarçado. O famoso: Não tenho nada contra, até tenho amigos negros. E o filme trabalha bem com essa ideia, numa festa em que praticamente todos os convidados são brancos, as conversas com Chris só acontecem através de estereótipos, e da citação de personalidades negras, numa tentativa de mascarar o racismo eminente.

    O filme vai ganhando o aspecto non-sense aos poucos, e quando isso acontece nós somos imersos junto com Chris nessa espiral de eventos e diálogos perturbadores.

    A mãe de Rose (Catherine Keener) é terapeuta e diz que pode hipnotizar Chris para que ele pare de fumar. Essa cena é maravilhosa! O filme faz a transição do real, para a animação, e depois extrapola isso com o surreal. Transições muito bem-feitas, por sinal. 

    Muito dessa imersão acontece graças à excelente atuação de Daniel Kaluuya, que faz caras e bocas, expressões realmente expressivas, entende? Ele tem esse poder quando arregala os olhos e as lágrimas escorrem, ou quando franze os olhos, torce a boca, enfim....

    O filme também nos apresenta o melhor amigo de Chris (Lil Rel Howery), que é um alívio cômico pontual e preciso! Ele funciona muito bem para a história em todas as suas aparições, falando em gírias e nutrindo um “racismo para com os racistas”, saca? É sensacional!

    Jordan Peele, que é conhecido por suas sketches para a internet, seus especiais de comédia e por Key and Peele − uma comédia feita em sketches para a tv −, demonstra um controle muito grande sobre o filme, e consegue encontrar um equilíbrio entre o comum e o non-sense, tratando a questão do racismo com um humor muito eficaz.

    Daniel Kaluuya controla o filme tranquilamente, tem uma atuação segura e suas expressões faciais são incríveis! É um ator jovem e que, depois dessa atuação nós com certeza o veremos em muitos outros grandes filmes.

    Corra! É um filme equilibrado, que utiliza o humor e o non-sense para contar uma história sobre racismo, extrapolando questões, e nos levando a pensar no “E se”, ou seja, missão cumprida.


    Um excelente protagonista, dois bons coadjuvantes, uma direção segura, transições suaves do non-sense para o real e uma proposta de discussão extremamente atual. Corra! É um ótimo filme, e nos dá boas expectativas para o futuro de Jordan Peele como diretor e de Daniel Kaluuya como ator.



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    Eis aqui mais um título simplesmente sensacional. E não poderia ser diferente, não poderia ser melhor. O livro de “despedida” de Buk é editado em forma de diário, são recortes selecionados pelo próprio Bukowski entre 91 e 93 – Buk morreu em 94.

    E o que encontramos nesses diários de um Buk já bastante velho, com problemas de saúde e mais experiente do que nunca, o que encontramos?

    Encontramos Buk falando sobre as pessoas, sobre a escrita, sobre cavalos, sobre a morte, sobre arte, tecnologia, enfim.... Buk selecionou recortes dos mais variados temas, mas não espere tratados sobre nenhum desses assuntos, Buk provavelmente acabaria achando muito chato escrever um tratado sobre qualquer um desses temas – exceto sobre cavalos, é exceto sobre cavalos.

    Sobre as pessoas, Buk não tinha lá grandes esperanças. A velhice veio, e depois de conhecer uma porrada de pessoas, e Buk não nutria nenhum desejo por tê-las por perto, inclusive as evitava. As pessoas são cansativas, insossas e entediantes. Buk tinha os cavalos e a bebida, para que precisava de pessoas? Obviamente Linda não entrava nesse grupo, porque já existira mulher mais compreensiva? Por incrível que pareça, Buk adorou ter um computador. Ele conseguia escrever muito mais, com facilidade para editar e corrigir. Seus pensamentos podiam fluir e o computador conseguia acompanhar.

    Odiava quase toda a música, mas amava música clássica. Não gostava dos cinemas, achava tudo previsível demais. Não gostava do que lia, porque achava a maioria dos escritores um bando de covardes. Não gostava de Tolstói, nem de Shakespeare.

    Mas, quero falar de O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do Navio, porque esse livro já se tornou importantíssimo para mim. Eu já li alguns livros sobre teoria literária, técnicas de escrita, mecanismos de storytelling, etc.... Mas, o que Buk nos dá nesse livro é diferente, é intenso, é apaixonado, é cru.

    Ele fala da escrita de forma tão, tão, tão apaixonada e simples, quero dizer, esse livro é quase como um tratado de pau duro sobre a escrita, saca? Entende o que quero dizer? Buk não tinha meias palavras, e com seu sarcasmo, ceticismo e humor tradicionais, ele passa pelo ofício de escrever, pela relação do escritor com o texto, com o público e consigo mesmo.

    Vou cita-lo, ao invés de falar sobre suas palavras, porque acho que isso os faria compreender melhor a importância desse livro para um aspirante a escritor, e também para um leito apaixonado que tem a experiência engrandecida, ao se dar de frente com um escritor tão apaixonado pelas próprias palavras, pelo próprio texto, porque quando um escritor pensa no leitor, nunca diz o que realmente quer dizer, e logo seu texto perde a razão de ser, porque o escritor escreve e o leito lê.


    “…Um escritor não deve nada, exceto ao seu texto. Ele não deve nada para o leitor, exceto a disponibilidade da página impressa…”

    “.... Escrever é quando voo, escrever é quando começo incêndios. Escrever é quando tiro a morte do meu bolso esquerdo, atiro-a contra a parede e a pego de volta quando rebate…”

    PUTA QUE PARIU, olha isso!

    “Cada nova linha é um começo e não tem nada a ver com as linhas que a precederam. Todos começamos como novos, a cada vez. E, é claro, isto não tem nada de sagrado. O Mundo pode viver muito mais facilmente sem livros do que sem encanamentos. E alguns lugares do mundo quase não têm nenhum dos dois. É claro, preferia viver sem encanamento, mas preciso dele porque estou doente.

    Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos do pé rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente a frente com a Morte. Você vai morrer como um lutador, será reverenciado no interno. A sorte da palavra. Vá com ela, mande-a. Seja o palhaço nas trevas. É engraçado. É engraçado. Mais uma linha...”

    Percebe?

    Livro de cabeceira.

    Obrigado Buk.
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    Os monstros salvaram Del Toro, e em A Forma da Água, Del Toro parece querer nos dar motivos para acreditar em um amor sublime e irreal, um amor intangível e puro, o amor entre um monstro e uma mulher,  e ele o faz, nos apresentando uma união que sem palavras, nos fala mais que mil filmes de romance ambicionam dizer.

    A Forma da Água é a história de amor entre Elise Esposito (Sally Hawkins) e A Forma (Doug Jones). Um amor que surge aos poucos, quando Elise, uma solitária faxineira, é encarregada da limpeza da área secreta em que A Forma está presam, num centro de pesquisas governamental.

    A história se passa no início da década de 60, então existe uma tensão política causada pela Guerra Fria, como pano de fundo. Aquela velha disputa entre americanos e russos pelo poder, influência e pelos avanços científicos e tecnológicos. Nós sentimos o peso dessa tensão, pelo desespero de Richard Strickland (Michael Shannon), que perde A Forma, prestes a se aposentar com glórias por tê-la capturado, e que agora, precisa mais do que nunca, recupera-la.

    O filme tem suavidade e delicadeza impar ao mostrar a aproximação entre Mulher e Monstro. Uma aproximação em que palavras não são ditas, visto que o Monstro, é um monstro, e Elise, é muda. O modo como Del Toro nos mostra essa aproximação e o nascimento da comunicação entre os dois, é tão doce, tão meiga, tão cheia de carinho, é algo digno de aplausos, pois Del Toro nos apresenta uma versão do amor tão bela, que nos faz querer compartilhar com os personagens, tais sentimentos.

    No primeiro ato, Del Toro nos apresenta a vida de Elise e sua rotina. Dentro dessa vida, existem dois personagens magníficos, que nos cativam imediatamente. Giles (Richard Jenkins), vizinho de Elise, e Zelda Fuller (Octavia Spencer), melhor amiga de Elise e companheira de trabalho. Del Toro utiliza muito bem o humor para construir o primeiro ato. Os diálogos entre Giles e Elise, entre Zelda e Elise, são divertidíssimos, porque como Elise não fala, ela acaba sendo a ouvinte perfeita, e então os dois falam e falam e falam sobre suas vidas e suas desgraças. Essa construção é divertidíssima, e Richard Jenkins e Octavia Spencer, entregam dois coadjuvantes de se aplaudir de pé!

    Del Toro retorna à uma parceria de muito sucesso ao dar o papel da Forma para Doug Jones, que atuou como Fauno em O Labirinto do Fauno, filme de Del Toro que é praticamente unânime entre a crítica. O Homem Anfíbio, em A Forma da Água, traz uma poesia em cada movimento, e dá a oportunidade à Del Toro de referenciar o cinema clássico. O aspecto visual é magnífico, bem como toda a fotografia de Dan Laustsen que captura essa poesia em cada quadro.

    O Filme se desenvolve ganhando um pouco mais de ação e até uma certa sensualidade intercalada com humor e tensão. O caminho que o filme segue em direção ao terceiro ato, é um daqueles caminhos que te faz ficar na ponta da poltrona, ansioso pelo desfecho, torcendo pelo final feliz desse belo "conto de fadas".

    A Forma da Água é um filme de inúmeros méritos, a começar pela ótima direção de Del Toro, o ótimo roteiro, o ótimo casting, a música de Alexander Desplat que é suave e casa com o filme em todos os momentos e a atuação de Sally Hawkins, digníssima de Óscar.... Mas, ouso dizer que o maior mérito do filme, é perguntar: “O que nos torna humanos? ”

    O Filme tem problemas? Sim, mas se tornam quase irrelevantes, porque Del Toro acertou a mão em cheio, dando suavidade, delicadeza e doçura a este belíssimo filme, que mostra a evolução de um diretor que não se contenta com o real, não se prende ao convencional, e permite que a fantasia ganhe vida, em forma de monstros que nos lembram do que realmente nos faz humanos.

    A Forma da Água é uma história de amor única. Uma fábula escrita, dirigida e atuada, com uma paixão única, uma paixão que transborda da tela para as poltronas, uma paixão que nos imerge nesse belíssimo mundo fantástico de Guilhermo Del Toro.

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    A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, óculos e close-upJúlio Costa | Transgressor

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