• Home
Facebook Instagram Twitter Youtube
Transgressor
    • Home
    • Cinema
    • Séries
    • Literatura
    • Música
    • Contos
    • Outros

    Vou começar citando alguns nomes, ok?

    Steven Spielberg, John Williams, Janusz Kaminski, Merly Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Bruce Greenwood.

    Eu sei. você poderia parar por aqui, já que depois de entregar todos esses nomes fica óbvio que o filme é incrível, certo? Mas continue, por favor. 

    Ao estilo de Spotlight (Que venceu o Oscar de melhor filme em 2016), Spielberg decide contar um pedaço da história do jornal Washington Post, que era apenas um jornal local até o desenrolar dos fatos abordados no filme.

    O New York Times, conseguiu acesso à documentos secretos que revelavam a verdade por trás da campanha americana no Vietnã. O documento continha declarações que afirmavam a incapacidade americana de vencer a guerra, enquanto mais jovens continuavam sendo mandados para o Vietnã. Naturalmente, quando o New revelou essas informações, criou um caos social e recebeu fortes censuras vindas diretamente da Casa Branca.

    Ben Bradlee (Tom Hanks) encontra nessa situação toda uma oportunidade para promover o jornal, lutar pela Liberdade de imprensa e pelo direito do povo de saber a verdade, mas diante das censuras que o governo estava impondo à quem vazasse esses documentos, Kay Graham (Merly Streep), a proprietária do Washington Post, fica receosa sobre a participação que seu jornal deveria ter em tudo isso, principalmente porque um de seus grandes amigos, Robert McNamara (Bruce Greenwood), estava envolvido no escândalo até o pescoço.

    A trama se desenrola por meio da busca de Ben Bradlee, Ben Badgikian (Bob Odenkirk) e equipe pelos documentos, e após terem acesso a esses documentos, o conflito escala para a decisão de publicar ou não as informações que comprometeriam o governo e revelariam a mentira que fora escondida durante anos da população.

    O roteiro de Josh Singer (Vencedor do Oscar de roteiro original por Spotlight), é excelente e desenrola a trama principal e as subtramas muito bem, bem como já havia feito em Spotlight.

    Tom Hanks tem uma atuação consistente, como sempre, e encarna Ben Bradlee, o editor do Washington Post. Um homem ambicioso, obstinado e apaixonado por sua profissão. Durante o filme, ele interage com os outros personagens, mantendo um humor ácido e um sarcasmo afiado.

    Merly Streep é maravilhosa outra vez, e trabalha um papel muito interessante, pois existe um arco bastante claro em Kay Graham. Ela começa o filme ocupando uma posição “masculina”, sendo ignorada, menosprezada e seus conselheiros não aconselhavam, mas intimidavam-na em direção à uma decisão. Com o desenrolar dos fatos, Kay Graham vai crescendo e ganhando força, confiança e aceita completamente o poder que têm.

    Bob odenkirk, nosso querido Saul de Breaking Bad, tem uma ação digníssima. Muito boa, equilibrada, segura, consistente. Todas as suas aparições são perfeitas. Ele entrega um ótimo coadjuvante para a trama.

    A fotografia tem um papel interessante no filme, principalmente no tocante à personagem de Merly Streep, que começa o filme acanhada e a câmera sempre a captura em meio à muitas outras pessoas, mas quando ela cresce, a câmera cresce junto e ela passa a ocupar a cena de outras formas. A fotografia comunica isso de forma muito eficaz.

    Sarah Poulsen também é uma coadjuvante que colabora para a história. A belíssima e talentosíssima atriz, tem um diálogo maravilhoso com Tom Hanks sobre Kay Graham, que acaba falando muito com quem está assistindo.

    O filme tem cenas belíssimas, mas o que chama atenção é como o jornalismo é mostrado de forma ampla, indo da captura de informação, à redação e dá redação, à formatação da placa de impressão, até a impressão do jornal.

    Não há muito o que dizer sobre Spielberg, John Williams e Kaminski. Essa trinca não comete erros!

    O filme é uma ode ao jornalismo. Ao jornalismo que não se cala, que busca a verdade e se preocupa realmente com o leitor. Questionamentos importantíssimos são levantados. Questões sobre liberdade de imprensa, sobre a relação do governo com o jornalismo e sobre a relação do governo com os governados.

    The Post é um filmaço!

    Continue Reading

    Lady Bird é um filme tão gostoso que você vai assistir toda santa vez que estiver passando nos “telecines” da vida.

    O filme conta um recorte da história de Christine, ou Lady Bird, ou Christine ─ Você vai entender a troca de nomes ─.
    É o último ano de Lady Bird no colégio, e ela está enfrentando típicos problemas dessa fase. Está enfrentando dificuldades com a família, principalmente com sua mãe, está naqueles momentos de descoberta sexual, descoberta amorosa, está com problemas de confiança e seu maior desejo é fazer faculdade bem longe de Sacramento. Para ela, estar naquela cidade é um dos fatores que a faz tão infeliz. Enfim, o plot é muito simples e já vimos essa história uma centena de vezes, mas é aquilo: Não é O QUE se conta, mas COMO se conta.

    O filme é preciso, em passear por essa fase cheia de maluquices tratando todas essas situações com uma dose deliciosa de humor. 

    Todas as cenas em que Lady Bird (Saoirse Ronan) e Sra. McPherson (Laurie Mercalf) contracenam, são fabulosas, hilárias e meu.... A relação das duas atrizes é harmônica e suave, mesmo enquanto suas personagens estão se digladiando, a cena flui com uma naturalidade absurda. O humor, o sarcasmo, as briguinhas. Pra mim o grande ponto alto do filme é a relação entre mãe e filha.

    Lady Bird começa a namorar Danny O’ Neil (Lucas Hedges), e esse namoro nos leva a uma das cenas mais lindas, intensas e impactantes do filme. Danny está envergonhado e com medo, porque Christine havia descoberto algo sobre ele que lhe causaria problemas se viesse a tona. Quando eles se encontram, Danny se derrama em lágrimas e essa sequência de pequenos atos, culmina no ápice, um abraço apertado, sincerso e intenso, que nossa Lady Bird dá em Danny, consolando-o..... Esse abraço é simplesmente fortíssimo e nos fala tantas coisas sobre a vida e sobre quem somos, sabe? É forte demais!

    Lady Bird vai se descobrindo e se perdendo durante o filme. Namora Kyle Scheible (Timothée Chalamet), perde a amizade de Julie Steffans (Beanie Feldstein), se aproxima da popular Jenna Walton (Odeya Rush). É uma sequência de subidas e descidas que compõe o 2º ato, mostrando as variações e os problemas que ela estava enfrentando para se encontrar.

    Um outro ponto interessante é a relação de Christine com o pai (Tracy Letts). A relação entre os dois também é bem gostosa de se ver, é humorada e tem um carinho muito real. A química entre os dois é excelente.

    O filme também traz a discussão sobre como o mercado de trabalho trata os "mais velhos". Até quando somos uteis? Até quando nós podemos executar uma tarefa com eficácia? Temos prazo de validade? Há uma cena em que o pai e o irmão de Lady Bird concorrem à uma mesma vaga, e nesse momento nós recebemos a resposta à todas essas perguntas. É uma cena interessantíssima, e uma discussão importante que foi inserida no filme de forma bem orgânica, sem forçação de barra.

    O filme acaba lidando de perto com a religião, já que Lady Bird estuda em um colégio católico. O mais legal é que o filme não se limita a criticar a religião, mas trata todo aquele mini universo com um humor apurado e suave.

    O conflito da parte final do filme é bem óbvio, e a resposta a esse conflito com a finalização do arco vivido por Christine é bem legal. Um fim de filme bem digno, com um jogo de câmera que para os mais atentos, dará um toque a mais na cena.

    A direção de Greta Gerwig é simples, objetiva, e até despretensiosa. Existem alguns lances de câmera que são bem legais, mas a história acaba ficando pautada mesmo no roteiro, que também foi escrito por Greta Gerwig. Aparentemente, "Lady Bird" é a volta de Greta Gerwig ao seu próprio passado, e a sua relação com sua mãe.

    A atuação da belíssima Saoisre Ronan é segura e cativante, e Laura Metcalf faz uma mãe verossímil e sarcástica, tal como todo boa mãe.

    O Filme é excelente, simples e gostoso demais de se assistir. Esse é um daqueles filmes que vamos ver repetidas e repetidas vezes, e vai se tornar o queridinho de muita gente, pode apostar.


    Continue Reading
    Abaixo de Zero – Breat Easton Ellis

    Ler Abaixo de Zero é mergulhar na década de 80, nas classes mais altas da sociedade, nas festas mais luxuosas, nas vidas mais áridas, frias e vazias de todo o mundo. É claro que isso é uma hipérbole, mas é o que Breat Easton Ellis quer nos fazer pensar. E faz isso ao nos levar a conhecer esse mundo cheio de drogas, festas, sexo e vazio, através da visão de Clay, nosso narrador e protagonista.

    Clay, está de férias da faculdade, volta para casa de seus pais em Los Angeles. Estão reunidos outra vez, Clay e seus amigos da época da escola, bem como uma antiga namorada. A volta para casa, significa chafurdar nas mais profundas águas do vício, luxúria e dinheiro. Festa após festa, carreira após carreira, transa após transa, tudo o que sentimos ao vivermos essas “aventuras” junto de Clay, é vazio.

    Breat, trabalha o livro em um único capítulo. É uma leitura rápida e deliciosa, porque as descrições, as cenas, os diálogos, tudo acontece em alta velocidade, e as poucas semanas em que acompanhamos Clay de férias em Los Angeles, com seus amigos, são suficientes para sentirmos uma espécie de “dó”, o que é irônico, tendo em vista que os fudidos aqui somos nós, não eles. Eles vivem entre estrelas do cinema, da música, andam em grandes carros, almoçam em belos restaurantes, bebem até não aguentarem mais, cheiram, fumam, metem, porra.... Por que sentimos dó deles, afinal?

    Talvez tenha relação com a constante tristeza, com as constantes crises existências e nervosas de Clay, quero dizer, todos esses meios alternativos de colocar você lá em cima, não tinham efeito algum, era somente o vício e a constante queda, uma queda longa, lá do alto, aterradora.

    Existe um momento em que alguns amigos de Clay, o chamam para o apartamento para mostrar a última grande novidade. Clay os segue, e encontra uma garota amarrada sobre a cama, os pés amarrados aos pés da cama, e as mãos amarradas à cabeceira da cama. Estava nua em forma de X. A menina tinha 12 anos, e estava sendo fodida por todos eles, constantemente. Clay foi convidado para participar, mas aquilo o enojou, e então temos um diálogo brilhante:
    “
    − Por que? – É tudo o que pergunto a Rip;
    − O que?
    − Por quê, Rip?
    Rip parece confuso:
    − Por que o quê? Está se referindo ao que ocorre lá dentro?
    Tento balançar a cabeça.
    − Por que não? Qual é o problema?
    − Porra, Rip, ela só tem onze anos.
    − Doze – Rip me corrige.
    − Está bem, doze – digo, pensando pouco nisso.
    − Ei, não olhe pra mim como se eu fosse um tipo de escroto ou porra assim, não sou não.
    − É que.... – Minha voz some.
    − É o quê? – Rip quer saber
    − É que.... Não acho isso certo.
    − O que é certo? Se você quer uma coisa, tem o direito de tomar. Se quer fazer uma coisa, tem o direito de fazer.
    Apoio-me na parede. Posso ouvir Spin gemendo no quarto e o som de uma mão dando um tapa, talvez num rosto.
    − Mas você não precisa de nada. Tem tudo – digo.
    Rip olha para mim:
    − Não. Não tenho não.
    − O quê?
    − Não, não tenho.
    Depois de uma pausa pergunto:
    − Que merda, não tem o quê, Rip, o que você não tem?
    − Não tenho nada a perder.
    Rip vira e volta ao quarto. Dou uma olhada e Trent está desabotoando a camisa, olhando para Spin, escarranchado sobre a cabeça da menina....”

    Breat, nos leva em uma espiral que parece jamais ter fim. Acompanhamos as drogas indo e vindo, acompanhamos um deles endividado, fazendo programas para pagar a dívida e tentando sair desse sistema maldito, mas sendo, através da heroína e de ameaças pontuais, controlado. Somos levados à um beco onde jaz um garoto morto, e as pessoas entram e saem do beco aos risos, achando muito engraçado que mais um jovem viciado estava lá, apodrecendo sob a escuridão de um beco qualquer.

    A riqueza, o status, o poder. Clay e seus amigos estavam imersos até o pescoço nessa merda toda, cegos e viciados, cansados do ordinário e exaustos do extraordinário. Qual seria a próxima novidade que tornaria a despertar seus olhos para o mundo?

    “O apanhador no campo de centeio para a geração MTV” – USA TODAY

    Eu não li “O apanhador no campo de centeio”, foi mal Salinger, mas é isso que tá escrito na contra capa do livro. Parece uma comparação importante, e é só por isso que está aqui.

    Só pra finalizar, eu amei essa porra de livro. Fiquei angustiado, com o pescoço fechando a cada novo degrau que desci junto de Clay. A narrativa é maravilhosa, a leitura passa num piscar de olhos. A escrita do Easton Ellis é suave, direta e objetiva, um primor! Um mergulho no vazio existencial, e na busca incessante por formas de se preencher.

    Porra, Abaixo de Zero é do caralho!
    Continue Reading

    O filme é belíssimo em mostrar os sentimentos em sua mais simples complexidade. É como se a paixão estivesse encarnada e fosse palpável. O filme não falha em nos imergir no mais íntimo de corações cheios de dúvidas e ensandecidos pelo desejo e pela paixão.

    Me chame pelo seu nome, é um filme onde a beleza dos sentimentos transborda.

    O Filme de Luca Guadagnino se passa no norte da Itália, em 1983.

    É verão e acompanhamos Elio (Timothée Chalamet), que não tem lá muito o que fazer no lindo interior italiano. Ele lê, estuda música e nada no lago próximo à casa de seus pais. Em meio às tediosas férias, Oliver (Armie Hammer), um acadêmico americano, chega à casa com o intuito de auxiliar o pai de Elio em sua pesquisa.

    A primeira metade do filme, consiste no desenvolvimento da relação entre Elio e Oliver, que a priori é cheia de sarcasmo, mas que aos poucos evoluiu para algo intenso e complexo. Elio é um jovem de 17 anos, que está tentando se entender, enquanto enfrenta uma imensidão de pensamentos e perguntas.

    A relação entre Elio e Oliver, tem sua primeira evolução considerável quando Elio, vê Oliver dançando e beijando uma garota em uma festa local. O ciúme o domina, e então nós percebemos que já existe um sentimento a mais por Oliver. Elio passa o dia o esperando. Elio vai para a cama o chamando de traidor. Isso é importante, porque esse “ciúme” faz com que Elio se envolva com Marzia, uma garota que tem a sua idade e faz parte de seu grupo de amigos.

    Aqui há um ponto interessante. Elio e Marzia tem uma experiência sexual que é filmada bem no cantinho da tela. Essa forma de filmar a cena, significa muito diante do todo que compreende o filme, e também diante da sexualidade e coração de Elio - Como se ele não soubesse se é isso mesmo que ele quer, é algo dúbio, por isso a cena é posta no canto da tela, como se demonstrasse à incerteza do ato. Há uma outra cena em que Elio e Marzia transam, e nesse momento a coisa toda é cercada de risos e humor. Imagino que esse tom mais engraçado, queira nos dar a entender que a “importância” do acontecimento não é grandiosa, pelo contrário, tal como a câmera os filmando quase no fim da tela. Elio teve essas relações com Marzia, mas nunca foi algo intenso, sua motivação talvez tenha sido tampar o ciúme com algum outro sentimento.

    Esse jogo de câmeras acontece durante todo o filme, e são cenas belíssimas. A Itália tem paisagens ricas e o filme as utiliza muito bem, tal como “Master of none” o faz em sua segunda temporada, mostrando a pacata cidade, a natureza e os prédios antigos. Mas, quando Elio e Oliver começam a se aproximar de forma mais romântica, a câmera começa a fechar ainda mais e vemos em praticamente todos os momentos, os dois juntos, entrelaçados, cheios de sensualidade, paixão e um “Q” de descoberta que permeia cada beijo, cada toque e cada conversa.

    Há uma cena, em que os dois estão sentados sobre a cama, e Elio aos poucos vai aproximando seu pé por sobre o pé de Oliver. O que de certa forma, também diz algo sobre como tudo aquilo era complexo para ele, de forma que o contato que coloca “fogo” nas coisas, é lento e feito praticamente como em uma guerra, onde cada centímetro é conquistado com muito esforço. Elio, lentamente bota seu pé por sobre o pé de Oliver e então as coisas se desenrolam em uma noite que é o estopim dessa paixão, que já existia, mas ainda era incerta para ambos.

    As cenas em que os dois estão juntos, são sensuais, apaixonadas, carinhosas, como se os dois estivessem juntos fisicamente, em um único corpo. Estão próximos e se beijam o tempo todo, e experimentam o corpo um do outro, palmo a palmo, o tempo todo. O filme é cheio de sensualidade, mas em nenhum momento isso fere, porque tudo é feito com uma paixão que emana para a tela.

    O filme é belíssimo, porque não se trata apenas de um relacionamento homossexual, mas principalmente de uma relação que queima, cativa e apaixona. É o retrato de um fogo que queima rápido, e deixa marcas. O filme é sobre descoberta, porque Elio, em todos os momentos está refletindo sobre si mesmo, e quando está com Oliver, as reflexões passam a contempla-lo também, de forma que a despedida é dura não só pela paixão que Elio tinha por Oliver, mas porque agora Elio tinha de pensar em si mesmo de outra forma, já que Oliver havia partido.

    O elenco é muito interessante, mas Timothée Chalamet e Armie Hammer, tem uma química impressionante, demonstrando cada um à sua maneira, a dualidade e o conflito de pensamentos que os bombardeia o tempo inteiro. Isso ocorre principalmente com Timothée, que entrega em “Me chame pelo seu nome” uma atuação riquíssima e intensa em todos os sentidos e momentos.

    O Pai de Elio, já na parte final do filme, tem uma conversa com ele que é simplesmente incrível e inspiradora, uma lição valiosa – Não é uma moral da história boba -, que pode fazer muito sentido para muitas pessoas que vivem incertas sobre si mesmas.

    O filme é todo belo, figurino, fotografia, os atores, todos são muito belos e a sensualidade, o nu, a paixão, todos esses elementos estão em um baile, numa sincronia perfeita, com uma trilha doce e pontual.

    Me chame pelo seu Nome, é uma obra maravilhosa, roteirizada por James Ivory, Dirigida por Luca Guadagnino, e de forma surpreendente e brilhante, entregue a nós pela doce, complexa e sincera relação de amor entre Elio (Timothée Chalamet) e Oliver (Armie Hammer).

    Para encerrar de forma bem clichê, o filme diz:


    Viva o amor enquanto se pode viver o amor. 
    Continue Reading




    Eram três da tarde e Valdo já estava em pé no ponto de ônibus há quase 40 minutos.
    − Essa porra não vai chegar nunca? – Ele resmungou para si mesmo.
    − É a greve. – Respondeu uma senhora de pele leitosa e fios de cabelo tão brancos quanto se é possível.
    − Foda-se a greve.
    A velha não respondeu.
    Dali, Valdo tinha como enxergar a rua toda e não havia nenhum sinal do ônibus. O valor do Uber estava na casa dos 30 mangos.
    − Pro inferno com isso! – Resmungou.
    O ônibus deu as caras virando a esquina lá embaixo. Dois pontos de ônibus vazios estavam entre Valdo e aquela lata de sardinha com rodas.
    O Sol estava no topo do céu, queimando tudo sob ele, inclusive Valdo e aquela pobre senhora.
    − Boa tarde. – Disse o motorista.
    − Vai se fuder.
    Quando se sentou, sentiu a camiseta grudando nas costas e as costas grudando no banco. Uma daquelas sensações que devem ser piores que a própria morte, mas que nos acostumamos a sentir, de forma que já não nos incomoda mais. Pelo menos não parece incomodar os outros, Valdo ainda tinha vontade de se jogar na frente do ônibus sempre que o via se aproximando.
    Tirou “O Grande Gatsby” da mochila, colocou os fones e torceu para que o motorista estivesse em um daqueles típicos períodos de depressão, uma daquelas fortes o suficiente para o fazer acelerar feito um louco em direção à um poste ou carro na contramão.
    − Oi Val. É.... Posso sentar? – Era Mariana, uma velha amiga.
    − Tá. Senta aí.
    − E então, quanto tempo, né?
    − Olha, eu não quero ser rude, mas vou ler e ouvir música e nós não vamos conversar. Não precisa se dar ao trabalho. – Ele colocou os fones outra vez e abrindo o livro, deu fim àquela que seria mais uma conversa chata, sobre faculdade, trabalho e relacionamentos. Mariana era uma garota bonita, mas sempre conversava sobre as mesmas coisas. Valdo já tinha escutado essa conversa outras vezes e, em outras semanas, talvez até tivesse topado ouvir outra vez, mas não naquele dia.
    Deviam faltar 5 minutos para o terminal da cidade. O ônibus estava cheio, e uma velha estava em pé ao lado de Valdo. Seus braços eram gordos e flácidos e suas pernas finas pareciam formar um arco sob o peso do enorme corpanzil idoso e cansado da velha.
    Os olhos de censura logo encontraram alguém para julgar. Aquele mesmo olhar de juiz, que nós adoramos usar para identificar nossos próprios erros nos outros.
    Valdo continuou sentado. Mariana estava dormindo.
    Levantou os olhos da página e a velha parecia estar sumindo aos poucos, perdendo-se junto ao ar quente e disputado do ônibus. Seus olhos se cruzaram por um minuto, e Valdo sussurrou para ela:
    − Eu não vou levantar, porque eu sei que você quer provar para todos esses filhos da puta que você consegue ficar em pé, que você pode suportar as lombadas e os buracos e até as freadas bruscas.
    Seu encontro da semana era uma bela garota ruiva, com piercings, calça de cintura alta e camiseta de “Star Wars”, − Eu já estou te esperando há trinta minutos. – disse assim que o viu.
    − Vai tomar no cu. – Valdo deu meia volta e entrou no ônibus outra vez.
    Olhou a garota pela janela e a viu com aquela expressão vaga e confusa.
    Era bonita, muito mais que Mariana jamais seria, mas em sua testa estava escrito em letras garrafais: Sou chata pra caralho.
    Valdo não conseguiu o mesmo lugar em que sentara na vinda. Aquela velha havia se acomodado, e esticava os dedos das mãos e as pernas, como se tentasse relaxar as juntas enferrujadas que foram sobrecarregadas se segurando no ferro superior do ônibus. Ele só conseguiu um lugar no último banco, exprimido no canto. O ônibus parecia ter mudado de destino, apesar do letreiro frontal apontar “Éden”. Haviam tantos velhos que o destino certo era o asilo. Mas, deixou que o pensamento fosse embora, um dia também seria velho e provavelmente outro jovem idiota teria os mesmos pensamentos ao seu respeito. Não que isso importasse, mas a vida já estava bastante chata para se doar tempo, pensando sobre velhos, asilos e transporte público. Pelo amor de Deus.
    Começou Olsen Olsen, Sigur Rós e pronto, era isso.
    “Dua tiga kucing berlari,
    mana nak sama si kucing belang,
    dua tiga boleh kucari,
    mana nak sama si adik seorang.”

    Você deve ter uma música que parece ser uma esporrada da vida, bem direto na sua cara. A melodia, as vozes, os instrumentos, sabe? Como se aquele som fosse mágico e te enchesse com um combustível que não pode acabar, como se aquela música fossem os leões que estão te perseguindo na savana africana, e você sabe que tem que correr, você sabe que precisa correr, Olsen Olsen.
    Valdo desceu alguns pontos depois e se sentia completamente outro. Colocou a música no repeat e ela já tocava pela terceira vez consecutiva. Havia um velho tentando subir no ônibus pela porta de trás, mas Valdo nem sequer o viu. Desceu pulando os degraus, atropelou o velho e então, correu, correu o mais rápido que pôde, correu até chegar à uma bela casa de esquina. Uma casa grande, com três andares e alguns carros na garagem.
    − Fabiiiii! – Gritou. – Fabiiii!
    Uma garota baixinha abriu a porta.
    − Ela está ocupada agora.
    − Ei, por favor. Me deixa entrar. Ela me conhece. Fala pra ela. É o Valdo. Me deixa entrar, vai. Por favor.
    − Espera ai. Vou tentar falar com ela.
    − Tá. Claro. É.... Vai lá. Eu.... tô aqui. Esperando.
    A garota se virou e fechou a porta.
    Alguns minutos depois, Fabi saiu acompanhada de um homem patético. Sapatênis, camisa social, calça desbotada, barba por fazer, aliança. Aquele tipinho fracassado de sempre, que irrita só de ver.
    − Fabi, que bom te ver. É.... nós precisamos conversar.
    − Você trouxe dinheiro? – Ela perguntou.
    − É claro, Fabi. Toma aqui, 100 mangos.
    − Certo queridinho, me dá 5 minutos pra tomar um banhozinho pra você.
    Valdo já conhecia a casa, então entrou e foi direto para o quarto.
    O lugar fedia a sexo. Aquele cheiro sufocante de suor e porra. Valdo não sabia se gostava ou não, mas não importava decidir isso naquela hora. Seu coração pulsava, e seu pau estava rijo, mas não era só tesão. Não. Era algum tipo de excitação que não tem relação com o sexo em si, era algo maior.
    Fabi entrou enrolada na toalha e começou a se secar. Secou as tetas, o rabo e a buceta. Passou creme nas pernas e borrifou perfume no pescoço e nos peitos.
    Ela estava deslumbrante, estava apetitosa, mas Valdo não queria comê-la. Não naquela tarde. Não naquele momento.
    − Fabi, eu vim te levar embora.
    − O que meu amor?
    − Eu vim te levar embora daqui. Nós vamos pra longe!
    − Ah bobinho! Como vai ser hoje?
    − Não, me escuta! Vou levar você e seu filho embora. Nós vamos pra Argentina, vamos embora daqui. Sair desse inferno.
    − Não é assim que funciona amorzinho.
    − É sim. Eu tenho dinheiro e você não vai mais precisar fazer programas. Nunca mais.
    − Você é só um garoto. Vamos deixar de papo e dar uma logo.
    − Ei. Olha pra mim! – Ele segurou o rosto de Fabi com as duas mãos, e continuou: − Fabi, eu sou apaixonado por você desde os meus 14 anos. Eu nunca vou te esquecer, e nenhuma dessas garotas consegue me ganhar. É só você. Sempre foi só você. Eu já namorei, você sabe, e mesmo assim, mesmo estando com ela, ela era linda, gostosa, porra, mas sempre foi você. Eu sempre voltei pra você.
    − Amorzinho, nunca te disseram pra não se apaixonar por uma puta?
    − E que controle eu poderia ter sobre o meu coração? – Valdo estava prestes a chorar, mas precisava ser forte para ela. – Fabi, eu nunca tive escolha. Se foi Deus, o Destino, ou o Diabo, eu não sei. Mas, tudo o que sou e tudo o que quero ser, tem relação contigo.
    − Amor. Eu acho você um docinho. Um amorzinho mesmo, mas você é meu cliente. Eu nunca quis que você se apaixonasse. Você sabe disso.
    − Fabi, eu juntei desde quando comecei a trabalhar. Meu plano sempre foi ir embora com você e te dar uma vida melhor. Sempre foi esse o meu plano.
    − Quanto você junto bebê?
    − Eu tenho 8 mil reais. –
    − Caramba docinho. É muito dinheiro!
    − Eu sei Fabi. E só juntei tudo isso por nós. Vamos começar uma vida juntos.
    − Val.... Eu tenho 31 anos, você tem 19. Eu tenho um filho. Isso não vai dar certo, é melhor você esquecer isso, ok?
    − Eu te amo Val, como nunca amei e nem vou amar alguém. Você é tudo pra mim. Desde a primeira vez em que estive aqui, e você me ensinou tudo, e me deu carinho, e amor, e paixão e tudo. Merda! Eu nunca encontrei nada disso nessas menininhas, não quero nenhuma delas, não quero.
    − Amor. Toma aqui os 100 mangos. Deixa eu tirar essa tua camiseta. Hoje você vai ficar comigo, ok? A noite toda e vai ser nossa última vez juntos. Eu quero que você pegue esse dinheiro e vá embora.
    − O que? Como assim Fabi? Não entendi. Eu não vou a lugar nenhum sem você.
    − Amor. – Ela o beija. – Amor, me escuta. Você vai pegar esse dinheiro e vai sair daqui. Esquece tudo o que você tem aqui na cidade. Eu vi num filme, que um garoto fez isso e sei lá, ele encontrou tudo o que precisava.
    − Filme?
    − É. Um filme... Como era o nome mesmo?
    − Na natureza selvagem?
    − É!!! Esse mesmo – Fabi confirmou batendo palmas.
    − Ele morre sozinho, em um ônibus, no meio do nada.
    − É, mas esquece isso. Não tô te falando pra ir pro meio do nada.
    − Fabi, eu não quero ir pra lugar nenhum sozinho.
    − Você pode ir pra Argentina, ou Chile, sei lá. Algum lugar que você precise aprender, sabe? Conhecer novas pessoas e tal
    − Eu não quero ir, Fabi. Não posso mais ficar sozinho, estou enlouquecendo.
    − Amor, eu sei que você não quer ficar sozinho.
    − Eu não aguento mais ficar sozinho. Eu não consigo mais. Não tenho nada.
    − Eu sei meu amor, eu entendo.
    − Fabi, você não sabe. Você não sabe, Fabi.
    − Acha que eu não sei? Eu cuido do meu filho, sozinha, sem o pai. Sem aquele filho da puta. Olha só pra mim. Essa é a minha vida.
    − Fabi, eu quero te tirar daqui. Vamos embora. Tudo pode mudar.
    − Val, você não precisa de ninguém. Faça o que eu te disse, e quando voltar me procure. Eu sei que você estará mais forte.
    − E depois eu volto pra você, Fabi?
    − Isso meu anjo, depois você volta pra mim.
    O corpo dela estava frio, seus mamilos rijos e suas pernas exibiam uma depilação feita às pressas. Nada daquilo importava. Valdo seria o homem de Fabi por uma noite. Valdo seria o último homem dela naquela noite. Ela se deitaria com o rosto contra o seu peito, mas antes disso, eles transariam por horas, uma atrás da outra, até que não fosse mais humanamente possível suportar a penetração.
    − Fabi, eu fui a pessoa mais sortuda do mundo quando te encontrei. Valdo disse quando ela estava sonolenta sobre seu peito.
    − Eu também meu anjo, eu também. – Fabi sussurrou, e pegou no sono.
    Valdo continuou observando-a, com o rosto subindo e descendo em seu peito. Sua pele nua contra sua pele nua. Coxa contra coxa. Os seios fartos e levemente caídos postos um sobre sua barriga e o outro ao lado, pendendo para junto do colchão. As unhas dos pés estavam metade vermelhas e metade brancas. Fabi era mulher pra ninguém botar defeito, e por mais que Valdo lutasse contra si mesmo, por mais que lutasse para ser antipático, solitário e o mais grosseiro possível, quando estava ali, quando estava naquela cama, com aquela mulher, ele não era o Valdo que manda velhos à merda, ele só era o mesmo garoto apaixonado que subiu naquela mesma cama, pela primeira vez, aos 14, sem passado, sem futuro, com nada além do presente sobre seus braços, com nada além de Fabi.


















    Continue Reading

    Denoto minha melancolia
    A base de Bukowski
    Em coma, 
    Acordei quando lia
    As notas de Dostoiéviski
    Que dizem:
    Bêbado não bebe, traga
    Bem,
    Traga-me whisky
    Para que eu lhe apresente
    O estrago
    De um trago
    Tão potente
    Quanto seu decote
    Bem direto
    Como no boxe:
    Esquiva-te
    De toda desgraça
    Sem chance pra nocaute
    Seja Goethe enchendo a taça
    Vender a alma e sonhar
    Ainda são de graça.
    Continue Reading

    Lá vou eu com minha paixão por bons títulos.... E Lawrence Ferlinghetti, sem dúvida sabe escolher bem seus títulos. Sua grande obra “Parque de diversões de cabeça”, tem esse nome maravilhoso, e “O amor nos tempos de fúria”, tem essa sobriedade poética que estampa sua capa. Sim. Títulos que me vendem obras, acredite ou não, as vezes isso acontece.

    O amor nos tempos de fúria, tem como pano de fundo, a efervescente Paris de 1968. As ruas estão tomadas por estudantes, trabalhadores, artistas, músicos, todos unidos em protestos, marchas, discursos e uma espécie de “vandalismo-de-revolta”.

    Paris foi o palco de uma das maiores greves da história. O Amor nos tempos de fúria, é, portanto, o resultado, ou a relação em si, entre Annie e Julien. Ela, uma pintora americana, apaixonada, romântica e idealista, e ele, um banqueiro português, cético quanto ao poder da revolução, mas apto à discursos inflamados e anárquicos em particular.

    “ A ÚLTIMA VEZ QUE ELA VIU Paria quando cantaram aves belas foi de um trem expresso que seguia para o sul em 1968 nos dias da revolta estudantil, e foi quase o último trem que partiu, mas isso é mais adiante na história, que começou no fim de uma noite no La Coupole em Montparnasse quando alguém apresentou Julian Mendes a ela, e a partir dali se desenrola uma história de amor naqueles tempos de fúria.”

    A trama, se desenrola por meio de longos diálogos entre os dois personagens, nos quais continuamos tendo as revoltas, marchas e protestos, em Paris, como plano de fundo. E o desenrolar da trama, nos apresenta a relação de Annie e Julien, de forma mais próxima. A paixão de Annie, e como Julien e sua segurança, parecem lhe encher de um bobo, mas gostoso sentimento cego. O problema, é que com o passar do tempo, Annie começa a se irritar com os múltiplos discursos de Julien, onde ele parece ser um fervoroso anarquista, que continua trabalhando em um banco, e continua gozando dos benefícios da vida burguesa, para ela, Julien é uma contradição.

    Annie, é uma das responsáveis por atear fogo na revolução, mas a distância do namorado da ação versus a paixão contida em seus discursos, formam uma dualidade na vida de Julien, que começa a causar repulsa em Annie. Ela o coloca contra a parede, e a partir de então o livro ganha ritmo e os diálogos se tornam intensos e profundos. Encontramos Julien, sempre sombrio, enevoado e introspectivo, tentando lidar com o fervor de Annie em favor da revolta, sua paixão e com sua vida em geral.

    “ Ah, a propósito, a Bolsa em si não estava pegando fogo, alguém tinha incendiado uma cabine telefônica e mais nada.... Mas Annie, falando sério, que benefício você acha que tudo isso vai trazer? Mesmo que tivessem conseguido reduzir a cincaz a maldita Bolsa, você acha que isso teria destrúido o coração de todo sistema, ou até mesmo todo o dinheiro e a palelada, sendo que quase tudo já foi guardado em lugares mais seguros há muito tempo? Na verdade, estou envolvido nisso....”

    Poderíamos dizer, que o livro, além das revoltas e questões políticas, trabalha muito bem o tema das “Convenções sociais”, que eram atuais em 68 e são atuais hoje, e com certeza serão atuais para sempre, quero dizer, como lidamos com a imagem que as pessoas querem projetar sobre nós? Como nos apresentamos diante das pessoas? Somos sinceros ao expor nossas opiniões? Quando estamos diante de alguém que nos interessa de alguma forma, mudamos de opinião sobre os temas que a visão da pessoa difere da sua? O livro trabalha muito bem essas questões, apoiado justamente na vida dupla de Julien, e na fé de Annie no namorado, que aos poucos vai se acabando diante da falta de ação de Julien ante a revolta.

    O livro também abre discussões sobre o valor social da arte, e como os artistas tem poder e até o dever de se posicionar, seja de forma pessoal, ou seja, através de seu trabalho – independentemente de qual seja a posição.

    Enfim, Ferlinghetti tinha esse "pegada" política extremamente presente em suas obras. O amor nos tempos de fúria, tem como todo o escopo as revoltas de 68. O autor, tinha um envolvimento bastante íntimo com os temas. Foi um dos grandes nomes da “Geração Beat”, junto a Kerouac, Ginsberg, Burroughs etc....  Foi um grande poeta, e até hoje é muito respeitado nos Estados Unidos, por sua poesia, por sua prosa, seu ativismo e sua editora/livraria City Lights, em São Francisco, conhecida por publicar clássicos beat e ser uma espécie de “Recanto” para toda essa geração de autores e artistas.

    Sua grande obra é “Parque de Diversões de Cabeça”. Recentemente terminei a leitura da obra, e só escolhi falar sobre “O amor nos tempos de Fúria”, por ser mais íntimo da prosa romântica, à poesia, no entanto, como o título mesmo propõe, Ferlinghetti nos leva para uma pequena jornada, onde sua cabeça é posta para brincar em ritmo, métrica, rima e arranjos diferenciados e estranhamente interessantes.

    É uma leitura prazerosa e rápida. A escrita de Ferlinghetti é simples, direta e cheia de longos diálogos. Isso te põem dentro da ação, dentro do caldeirão francês de 68. Um período pouco explorado, mas muito rico. A discussão política e sobre convenções sociais, ultrapassam o fim da última página e como pensar é sempre bom, eis outro motivo para ler Ferlinghetti, para ler “O amor nos tempos de fúria”, para ler “Parque de Diversões de Cabeça”. A discussão não termina quando o livro acaba.
    Continue Reading

    Já vou começar elogiando, sem introdução mesmo. Então, lá vai:

    Que filme bom da porra! Que atuação de Gary Oldman, puta que pariu. Que fotografia linda! Pronto. Tá na cara que gostei do filme, mas continuem a leitura, acho que vai valer a pena.

    O Destino de uma Nação, é um filme biográfico, que tem como pano de fundo a segunda guerra mundial. Nós acompanhamos de perto o desenrolar dos fatos, a partir da perspectiva de Winston Churchill (Gary Oldman).

    A Inglaterra, assim como toda a Europa, estava sendo devorada pela Alemanha Nazista. Centenas de milhares de ingleses e franceses estavam encurralados em Dunkirk, cerca de 400 mil soldados. O parlamento inglês está pegando fogo, e o primeiro-ministro renúncia após sofrer muita pressão da oposição. O partido precisa indicar alguém que consiga manter a conversa aberta entre os dois partidos, e consiga lidar com a iminente derrota da Inglaterra e da Europa ante a ameaça nazista.
    Winston Churchill, como bem sabemos, não era a primeira opção. Definitivamente não era. No início do filme, em algumas cenas são mostradas por meio de diálogos de membros do partido, e até de Vossa Majestade (Ben Mendelsohn), o medo que tinham todos, de nomear Winston, tendo em vista uma sucessão de fracassos políticos e estratégicos, os seus maus hábitos e seu jeito “impulsivo”.

    Já nesse primeiro momento, somos introduzidos à rotina de Winston. Conhecemos sua esposa, seu braço direito, e uma jovem moça que está começando a trabalhar para Churchill como datilógrafa. A Esposa, Clemmie (Kristin Scott Thomas), o braço direito de Churchill, Anthony (Samuel West) e Churchill, tem como um de seus grandes adversários o Visconde Hallifax (Stephen Dillane – Stannis em Game Of Thrones), esses, principalmente, são os personagens que aparecem o tempo todo durante o filme, sempre com diálogos interessantes e bem humorados – O humor, inclusive, é um ponto muito alto do filme, pois são muitos os momentos em que Churchill (Gary Oldman) nos faz rir, seja com uma piada propriamente dita, ou com um de seus trejeitos, ou com alguma “patada”, enfim, o filme tem uma dose perfeita de humor −, mas quem recebe mais atenção, além do próprio Churchill, é a Senhorita Layton (Lily James), que além de ser responsável por Datilografar os discursos de Churchill, acaba desenvolvendo uma relação muito legal para a trama e bastante harmônica. É sempre muito gosto vê-los juntos em cena, existe sintonia.

    Então, nesse primeiro cenário, temos a Inglaterra e a Europa sendo devastada pelo Nazismo, a França prestes a se render, o parlamento britânico em chamas, o primeiro-ministro renúncia, Winston assume cheio de desconfianças e inimigos.

    E para cumprir com os temores de todos aqueles que desconfiavam de Winston, ele assume o cargo e dá logo o tom da conversa. Não haverá rendição, não haverá paz com Hitler, e a Inglaterra se reerguerá e sairá vitoriosa dessa guerra. Esse discurso, soava como loucura aos ouvidos de todos os que estavam a par dos acontecimentos e do avanço nazista pela Europa, no entanto, Churchill acreditava piamente nisso, mesmo temendo em inúmeros momentos, e enfrentando a resistência de seu comitê de guerra.

    Churchill, interpretado por Gary Oldman, é um personagem maravilhoso, encantador, engraçado, particular, único. Cada diálogo de Churchill, seja com a esposa, com seu braço direito, com a Srta. Layton ou até mesmo com o Rei George VI, é cercado de sua personalidade gritante. O humor, a acidez, o sarcasmo. O personagem é completo, é tridimensional, é o verdadeiro protagonista, aquele que não rouba a cena para si próprio atoa, mas é apoiado por um roteiro bem escrito, e um diretor que sabe o que quer mostrar. Gary Oldman, é simplesmente MARAVILHOSO e eu ouso dizer, que sua atuação é IMPECÁVEL.


    Os telefonemas que Churchill troca com o presidente dos Estados Unidos, ou com seu general, são incríveis. Seus discursos para o parlamento, seu discurso para o povo pelo rádio, são incríveis. A cena em que ele abandona o carro, e vai de metro para Westminster, e no vagão encontra cidadãos britânicos e lá, conversa com cada um deles, pergunta seus nomes, seus temores, e depois os guarda consigo, para ajudá-lo a decidir-se em um momento de incerteza. Churchill foi um dos grandes responsáveis pela mudança dos rumos da guerra, quando se manteve firme e confiante, mesmo diante da iminente derrota. Aos poucos, transformou a desconfiança em confiança, conquistando inclusive o próprio Rei George VI.

    Dunkirk era a salvação e a única esperança para a Inglaterra. Churchill convoca os civis e seus barcos, numa missão maluca, chamada de “Dínamo”. O Resultado foi de 300-400 mil soldados evacuados de Dunkirk, em meio aos bombardeios alemães. Fato esse que foi narrado por Christopher Nolan, em “Dunkirk”, filme que também está muito forte na corrida pelo Oscar de Melhor filme.
    Churchill teve a coragem necessária para tomar decisões difíceis, para sacrificar, para vencer.

    O filme biográfico de Churchill, até por ser Dirigido por Joe Wright, um Inglês, é bastante heroico, tal como Dunkirk, que também é dirigido por um inglês.

    Alguns meses após o fim da guerra, Churchill foi derrotado em eleições, mas fica seu legado de ter exercido um papel fundamental na derrocada do partido nazista e na queda de Hitler.
    -
    Não acabou. Esse é o plot da história, o enredo, a narrativa. Agora, vou para questões mais técnicas do filme, e se você é apaixonado por cinema, provavelmente vai gostar do que vêm pela frente.
    -
    Joe Wright, é o diretor de “O Destino de uma Nação”, um inglês que tem em seu histórico um relacionamento bastante interessante com as obras clássicas da Inglaterra. O Diretor, adaptou as obras “Orgulho e Preconceito”, “Desejo e reparação”, ambas de Jane Austen , e dirigiu o excelente “Nosedive” em Black Mirror – Aquele em que a garota vive uma vida falsa para aumentar sua nota social – e pode se orgulhar de ter levado a maravilhosa Keira Knightley, a maravilhosa Saoirse Ronan e agora Gary Oldman.

    O Diretor mostra claramente ao que veio em “O Destino de uma nação”, o filme todo é muito belo. Você vê que a câmera está onde ela deve estar. A cena em que Chamberlain é escorraçado no Parlamento, começa a ser filmada de cima, e nós temos o panorama total da desordem e calor daquela sala, naquele momento. A cena em que A Srta. Layton vê Churchill pela primeira vez, posto em cima da cama no escuro, iluminado tão somente pela fraca luz do Fósforo que acende o seu charuto. A cena em que Winston vai falar com o Rei, e temos aquela perspectiva do corredor. A fotografia do filme, a direção das câmeras, a iluminação, paleta de cores, é evidente que o filme foi carinhosamente elaborado, foi carinhosamente dirigido, foi pensado e filmado com muito apreço.

    Gary Oldman, como já disse acima, está simplesmente BRILHANTE. Sinceramente, não vejo outra possibilidade para o Oscar, senão dá-lo com todos os méritos, honras e aplausos a Oldman, por sua atuação com Winston Churchill. Ele não se transforma em Churchill, ele se entrega, como disse Nathalia Bridi, em outra crítica sobre o filme.

    Os trejeitos de Churchill, a forma de andar, os murmúrios, as tosses, MEU DEUS. Aquilo que nós vimos durante o filme, aquilo é uma atuação das mais dignas de aplausos que eu em minha pequena vida de cinéfilo, já vi.

    Oldman realmente dá as cartas durante o filme, no entanto, isso só se faz possível, pois havia sim um roteiro muito bem escrito. Um roteiro que levou em conta a guerra, o clima, o medo, a incerteza, um roteiro que levou em conta o próprio Churchill. Enfim, Gary Oldman merece o oscar, não me resta dúvida.

    E aquela maquiagem? Meu Deus! Eis outra oportunidade em que “O Destino de uma nação” se coloca como forte concorrente. A Maquiagem de Gary Oldman, para Winston Churchill é do mais alto nível, é formidável.


    Meu Deus, o filme tem tantas cenas belíssimas que se torna difícil falar de cada uma delas, mas gostaria de ressaltar a cena do Metrô. Que cena linda. Temo que ao me estender por mais algumas palavras, tornarei a repetir adjetivos e cada vez maiores e com mais intensidade, até que terei de recorrer aos palavrões como fiz no primeiro parágrafo. Pois, SIM! O filme é brilhante. SIM! Gary Oldman interpretou um Winston Churchill que será inesquecível!

    Para finalizar, quero dizer:

    O Filme é uma obra de arte. Eu estou completamente apaixonado por esse filme. Joe Wright dirigiu o filme de forma magistral, Gary Oldman teve uma das atuações mais brilhantes que já vi, os coadjuvantes têm seu papel de importância na trama, a trilha sonora é maravilhosa, a maquiagem, o figurino, a fotografia. Meu Deus! O filme é foda pra caralho!

    A corrida pelo Oscar neste ano está duríssima. Temos, A Forma da Água, Lady Bird, Dunkirk, O Destino de uma Nação, Três anúncios para um Crime, Me chame pelo seu Nome, etc.... Mas gostaria de ressaltar, mais uma vez, o quão impressionante é, o fato da Segunda Guerra Mundial continuar nos rendendo grandes filmes. Dentre os grandes cotados para o Oscar desse ano, temos Dunkirk e O Destino de uma nação, ambos acabam até se completando, e trazendo retratos belíssimos desse trágico período da história humana.

    Agora, para encerrar de verdade. Vocês acreditam que Gary Oldman quis recusar o papel, pois não se achava capaz de interpretar Winston Churchill?

    Meu Deus! Só “O Destino de uma nação” para me fazer dizer: Meu Deus....

    Continue Reading

    Crônica de um amor louco, Ereções, Ejaculações e exibicionismos – Parte 1.

    Porra... Eu amo esse título! “Crônica de um amor louco”, porra.... Olha pra isso, quero dizer, veja o quão belo é o título per si, a poesia desse arranjo. O título, aliado ao subtítulo - Ereções, Ejaculações, Exibicionismos -, representam com uma elegância típica do grande Bukowski, o assunto, a temática, enfim, representar o conteúdo desse belíssimo livro.

    É isso o que você vai encontrar nessas 30 ou 31 crônicas. Amores intensos, insanos, imprevisíveis. Amores de uma noite, de uma semana, de uma foda. Amores perigosos, problemáticos e loucos.

    “A mulher mais linda da cidade”, por exemplo, é a crônica que inaugura o livro, e puta merda. Não poderíamos começar melhor. A crônica é simplesmente BRILHANTE, inclusive foi adaptada para o cinema em 81 por Marco Ferreri. A crônica conta a história de Cass, uma mestiça índia que passou a adolescência em um convento, e quando saiu se juntou as suas outras 4 irmãs. Cass, era a mais bonita dentre as irmãs e a mais bela moça da cidade. Sua beleza no auge de seus 20 anos, era simplesmente estonteante. Era exótica. Única.

    A crônica é extremamente humana, do inicio ao fim.

    Primeiro nós lemos Cass, revoltada contra si mesma por ser bela demais, triste com os outros por se aproximarem dela por sua beleza - e somente por isso -, lemos Cass se mutilando para acabar com a beleza que a impede de ser reconhecida por quem é de fato, lemos um Buk preocupado, mas não tanto, e por fim lemos um Buk derrotado, saindo do bar em que normalmente encontrava Cass, após ser avisado de que ela cometera suicídio há uma semana.

    “Bebi até a hora de fechar. Cass a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele "não". Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que por a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos. Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:
     - MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!
    A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia mais fazer nada.”

    É lindo ver como em poucas páginas, Buk explode em sentimentos, emoções, conflitos e arrependimentos. É o que eu costumo dizer para as pessoas quando nos dispomos a falar sobre Bukoswki:
    Ele tinha uma sensibilidade que fica escondida nas palavras rudes, mas ela está lá o tempo todo, por trás de cada cu, buceta, pau, piça. Buk era imenso em sentimentos, ele transbordava, e foda-se que parece clichê.

    Todas as crônicas possuem a análise particular de Buk sobre o mundo, sobre a sociedade, e principalmente sobre as pessoas. É um dom tão particular e tão belo, quero dizer, para um escritor, ler as pessoas da forma como Buk lia, porra, isso é lindo e enlouquecedor, tudo ao mesmo tempo.

    “ O espremedor de culhões “ é uma crítica social belíssima e muito visual. É a história de uma empresa, uma agência de empregos. Existem dezenas de homens presos em ganchos, tal como num açougue. Quando a agência recebe um telefonema solicitando um funcionário para o serviço X, eles correm  e passam um daqueles homens no espremedor, até que o homem fique sem os culhões.
    O resultado de 4 ou 5 voltas – para os sujeitos mais durões – era perfeito. O homem que tinha convicções, posições e certezas antes de entrar na máquina, saía absolutamente renovado, pronto para a sociedade, pronto para ser o funcionário perfeito.
    “- Herman? - chama Bagley.
    - Sim, chefe.
    - O que é que está sentindo? Ou melhor, como se sente?
    - Não sinto absolutamente nada chefe.
    - Você gosta de tiras?
    - Tiras não, chefe - polícias. Eles são vitimas da nossa maldade, embora
    às vezes nos protejam atirando, prendendo, espancando e multando a
    gente. Não existe essa história de que não há tira que preste aliás,
    polícia, desculpe. Já imaginou se não houvesse polícia? A gente teria
    que impor a lei com as nossas próprias mãos.
    - E aí, o que ia acontecer?
    - Nunca parei pra pensar, chefe.
    - Ótimo. Acredita em Deus?
    - Ah, claro que sim chefe. Em Deus, Pátria, Família, Tradição. E no
    trabalho honesto.
    - Puta que pariu!
    - Como disse chefe?
    - Não. Nada. Agora, escuta aqui, você gosta de fazer serão?
    - Ah, claro que sim, chefe! Gostaria de trabalhar 7 dias por semana, se
    possível. E de ter 2 empregos se pudesse.
    - Por quê?
    - Por causa do dinheiro, chefe. Pra comprar TV a cores, carro novo, dar
    entrada pra casa própria, pijama de seda, 2 cachorros, barbeador
    elétrico, seguro de vida, assistência médica, ah, tudo quanto é tipo de
    seguro, educação escolar para os meus filhos, se eu tiver, porta
    automática na garagem, roupas finas, sapatos de 45 dólares, câmeras,
    relógio de pulso, anéis, lavadora automática, geladeira, poltronas e
    camas novas, forração de carpete em todas as peças, donativos pra
    igreja, aquecimento central e...
    - Tá legal. Chega. Agora, quando é que pretende usar todos esses
    troços?
    - Não estou entendendo, chefe.
    - Quero dizer, se você trabalhar dia e noite ainda fizer serão, que tempo
    te sobra pra aproveitar todo esse luxo?
    - Ah, esse dia há de chegar, chefe, ele há de chegar!
    - E não acha que teus filhos um dia hão de crescer e julgar que você foi
    um trouxa?
    - Depois de ter me esfolado vivo por causa deles, chefe? Claro que não!
    - Maravilha. Agora, só mais algumas perguntas.
    - Pois não, chefe.
    - Não acha que toda essa escravidão permanente é prejudicial pra saúde
    e pro espírito, pra alma, se quiser...?
    - Ah, pô, se eu não ficasse trabalhando o tempo todo, ia acabar sentado
    por aí, bebendo, pintando quadros a óleo, fodendo, indo ao circo ou no
    parque pra ver os patos. Coisas desse gênero.
    - Não acha que ficar sentado no parque, olhando para os patos, pode
    ser muito agradável?
    - Mas desse jeito eu não ganho dinheiro, chefe.
    - Tá legal, vá se foder.
    - O que, chefe?
    - Não, nada. Já sei de tudo o que precisava. OK, Dan, este aqui tá no
    ponto. Parabéns. Dá o contrato, pega a assinatura dele, a letra é tão
    miúda que nem vai conseguir ler. Acha que somos gente boa. Manda
    correndo lá no endereço. O pessoal vai ficar encantado. Há meses que não arrumo melhor contador.”

    Não é brilhante?

    Crônica de um amor louco, caminha por entre hotéis baratos e sujos pelo Texas, a dias em que Buk mora de favor com uma senhora gorda, ou com um grande poeta francês. Caminha por entre os hipódromos, por entre apostas e dicas, por entre derrotas e lucros. Caminha por brigas, paixões, problemas com a polícia, sexo selvagem, hétero e homossexual. Buk explora uma série imensa de possibilidades, narrando aventuras que viveu, ou que outras pessoas viveram.

    Em “O diabo em forma de gente”, temos uma crônica que narra um fragmento da vida de Martin Blanchard. Um homem de 45 anos, que já havia se casado duas vezes, divorciado, e tinha acabado de perder seu 27º emprego, por puro desinteresse.

    O homem fica pela janela, observando o movimento e vê três criancinhas brincando. Dois garotos e uma garotinha, que devia ter uns 6, 7, 8 ou 9 anos, algo assim. Ela vestia roupinhas de criança, inocente, despreocupada. Mas, Martin Blanchard ficou excitado ao vê-la daquela forma, com sainha e babadinhos.

    O homem embriagado saí de casa e vai até a garagem onde eles brincavam sozinhos. O resto você já pode deduzir. E sim! É tão ruim quanto você está pensando que é. A crônica é aterradora, mas tem o seu valor assim como todas as outras. Quero dizer, Buk nos faz pensar em uma caralhada de coisas – mesmo que não fosse sua intenção -, pensamos sobre o amor, sobre a beleza, sobre o trabalho, sobre Deus. E esse conto nos lança no mais profundo abismo, nos coloca diante de uma das situações mais repugnantes em que se é possível pensar, e é isso.

    Crônica de um amor louco, é riqueza. É beleza. É como mergulhar num oceano de sentimentos, onde ondas de reflexão caem sobre você e quando você se ergue elas tornam a cair sobre você. O livro tem doses certeiras daquele bom e velho humor, tem momentos de emoção e tem momentos de choque. Buk te joga de lá pra cá e depois de cá pra lá e essa experiência, digo, essa experiência de ser tomado pelas mãos desse homem.... Sim. Essa experiência é marcante e única. E o melhor de tudo é saber que ele não escreveu tudo isso para todas as pessoas, ele escreveu por que precisava escrever, e com certeza sabia que seria odiado por uns e amado por outros.

    Eu o imagino a pensar sobre os que o odeiam, com aquela mente bem-humorada e ácida. Talvez dizendo: Nunca foi para vocês.
    Mas isso é só a minha imaginação. Fiquemos portanto, com suas palavras e seus textos. Mergulhemos, pois, neste universo cheio de amor, sexo, sujeira e sensibilidade.

    Bukowski é grandioso, e Crônica de Amor louco é uma obra digna de seu autor.
    Continue Reading

    Narrado em primeira pessoa, ‘’Onde andará Dulce Veiga?’’ É um romance escrito em 1990 por Caio Fernando Abreu, onde nos é contada a história de um jornalista fracassado e aparentemente sem perspectiva que se vê envolvido diante do mistério que ronda o desaparecimento de Dulce Veiga, famosa cantora de sua época, atualmente desaparecida há 20 anos.

    Estamos diante de uma São Paulo caótica pós-ditadura, rodeada por habitantes vestidos de excessos de: dúvidas, receios, dramas, tristeza, caos. Aparentemente algumas coisas nunca mudam. Seguimos.

    O personagem principal é um tanto quanto singular, mas não. É curioso que em momento algum é citado seu nome, talvez para que aja identificação do leitor. Fato inclusive inevitável, visto que é um personagem perturbado pela pressão social, por seu ‘’fracasso’’ profissional, por carregar consigo amores perdidos, desejos inalcançáveis e uma falta de perspectiva que pode se confundir com tédio existencial.

    ''Há tanto tempo eu não jantava fora. Era como ir ao cinema. Mesa no canto, azeitonas pretas sem caroço, pão com gergelim, patê de berinjela, bloody mary. Um, dois Cigarros. [...] Elis Regina numa FM suave, sentimental eu fico, quando pouso na mesa de um bar, eu sou um lobo cansado, carente.'' (pág. 108)

    Ao arranjar o emprego o livro inicia de fato, pois personagens com as mais variadas características irão aparecer, desde: gays, bissexuais, umbandistas, drogados, estrelas da música e etc. É também o momento em que os mais atentos identificarão o quão sensível é o livro e sua respectiva proposta. É também aonde provavelmente todos irão se identificar: do pessimista ao otimista, cabe geral. São Paulo é grande.

    A perseguição que envolve Dulce Veiga flerta com um romance policial, no entanto há de se pontuar que o criminoso (se é que existe) é intangível, é subjetivo. Dulce é a representação da felicidade, seja qual for a sua definição para tal.  Apesar de subjetiva, torna-se paradoxalmente objetiva, visto que junto com a morte, uma das certezas da vida é que a felicidade não vem e é linear em nossas vidas, quiçá nos dias. Logo, Dulce é a esperança. Dulce é a idealização do desejo e fome de respostas.

    ''Ia para encher o tanque redondo entupido de copos de plástico, pedaços de jornal, camisinhas usadas, pontas de cigarro, um querubim no meio do lixo. 
    Eu deveria ter voltado, para telefonar ou descer a ladeira até encontrar um táxi, cruzar a cidade o mais rápido que pudesse enfrentar Rafic, a fera muçulmana disposta a fazer um quibe cru dos meus colhões. Mas irracional, irresponsável, atravessei a rua atrás dela...'' (pág. 98)

    Ao descrevê-la o personagem não poupa elogios e ao compartilhar informações de outras pessoas que fizeram parte de sua vida, conclui-se que, primeiro: ela encantou tudo e todos. Segundo: ela é tão perdida quanto os que a querem procurar.

    Não saber com exatidão o que é necessário para se preencher ao mesmo tempo em que a suposta solução não tem o gabarito, ou melhor dizendo, nem sabe que é o gabarito, talvez seja a mais digna e singela representação da juventude (por que não geração?) afogada pela ansiedade, seduzida pela busca de um sentido pela vida, tido como fundamental, mas que pode não ser essencial.

    '' - São tudo histórias, menino. A história que está sendo contada, cada um a transforma em outra, na história que quiser. Escolha, entre todas elas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo. Mesmo que ninguém compreenda, como se fosse um combate. Um bom combate, o melhor de todos, o único que vale a pena. O resto é engano, meu filho, é perdição.''  (pág. 204)
    Continue Reading

    Em “O Rei do Show”, somos apresentados a história de P.T. Barnum.  P.T. Barnum sofreu muito com a pobreza durante a infância. Apaixonou-se por uma jovem, filha do patrão de seu pai, que imediatamente rechaçou sua pretensão. Os dois mantiveram contato, mesmo contra o gosto do poderoso homem. Barnum perdeu o pai ainda criança, e teve de sobreviver com muita luta. - Tudo isso é metade dedução, metade certeza. O filme tem saltos temporais que te deixam meio no escuro.

    Hugh Jackman, emplaca mais uma belíssima atuação em um musical. O ator já tinha participado do ótimo, “Os Miseráveis” em 2012, e agora em “O Rei do Show”, encontramos outra vez um Hugh Jackman, intenso, vivo e poderoso. Sua entrega durante todo o filme é emocionante, e é perceptível em todos os momentos, a cada cena, a cada fala, a cada passo, é um P.T. Barnum cheio daquilo que o move. Cheio de sonhos, esperanças e ambições. 

    A trilha sonora é o ponto alto do filme. Ela sustenta toda a trama – que em si mesma é bastante simplória. O filme ganha emoção, intensidade e te cativa na primeira metade, quando acompanhamos a rápida evolução de P.T.Barnum, de um garoto que perde o pai muito cedo, há um jovem aventureiro que se casa com a filha do ex-patrão de seu pai e busca a realização de seus sonhos e a prosperidade de sua família.

    P.T. Barnum era um verdadeiro showman. Ele conseguiu atrair público para o seu show de “aberrações”, tornando o seu espetáculo “O maior show da Terra”, como ele mesmo gostava de dizer. O problema, é que quando ele alcança sucesso local, ele quer mais e quer mais e sempre mais. Isso acaba o distanciando de sua família, e acarretando uma série de complicações, não só para o seu show, mas também para suas relações pessoais. Sua esposa mesmo o avisa disso inúmeras vezes, mas ele não dá ouvidos e segue sua jornada cega em busca de sucesso.

    Zac Efron e Zendaya, desenvolvem uma sub-trama muito boa na segunda metade do filme. Eles acabam assumindo e protagonizando os momento mais interessantes, visto que P.T.Barnum se afasta de seu espetáculo local para trilhar uma turnê com Rebecca Ferguson (Uma belíssima cantora de ópera, que conheceu no mesmo dia em que foi apresentado à Rainha).

    A sub-trama entre os dois, utiliza-se muito bem da música para se desenvolver. Zac Efron é nascido em uma família importante e Zendaya não passa de uma trapezista de circo. A relação entre os dois é cheia de preconceito, medo e paixão. Todos esses sentimentos e reações são bem dosados e bem expostos em poucos minutos de tela, e a química entre os dois fica clara a cada olhar e cada toque.

    Conclusão:

    Fiquei cansado no final do filme com as músicas e até torci para que eles simplesmente respondessem as perguntas e tecessem diálogos como qualquer pessoa normal faria, mas isso tem muito mais comigo do que com o filme. Eu não sou dado aos musicais, mas reconheço que a trilha de “O Rei do Show” é deliciosa, é dramática, é intensa, é emocionante.

    O roteiro, de fato é simples e o filme é sustentado pelo ótimo Hugh Jackaman e pelas micro-tramas que são apresentadas com o auxílio das ótimas músicas e belíssimas coreografias. 

    A fotografia do filme também é bastante bela e te coloca dentro do circo, como se você fosse parte da "trupe".

    Gostei bastante do filme, apesar de não estar nos meus gêneros preferidos, e de reconhecer que em muitos momentos a trama é bastante “boba”, mesmo assim eu gostei. 

    O Filme tem uma primeira metade bem bacana e uma segunda metade com alguns pontos altos que ajudam a tornar irrelevante o cansaço.

    Assista-o no cinema. O filme é uma experiência e você precisa escutar essa trilha gostosa no cinema, com todo aquele som e sentindo cada arrepio percorrendo seu corpo. Vale a pena!
    Continue Reading


    Sabe aquele filme ou série que você assiste e tem aquela sensação de que em uma ou duas semanas vai se esquecer?

    The end of the f***ing world, é uma dessas séries.


    -
    James (Alex Lawther) acredita que é um psicopata. Alyssa (Jessica Barden) é a garota nova do colégio, impulsiva e revoltada. James vê em Alyssa a oportunidade perfeita para realizar o seu desejo de matar uma pessoa.

    Eles começam um relacionamento meio maluco, e Alyssa convence – sem esforço algum – James de fugir com ela. Os dois roubam o carro do pai de James e partem para sua road trip.

    Esse é o plot inicial.

    ---

    A Série não é boa pra valer. Ela tem bons momentos, e você até acaba se esforçando para gostar, e talvez até acabe gostando, mas falta algo. É aquela típica história de passagem da juventude para a vida adulta, aquela sucessão de erros e desastres característicos desse momento, dispostos em 8 episódios curtos, onde você recebe de tempos em tempos uma piada, sendo a própria atuação a maior delas.

    Os dois oferecem uma união bizarra e que é engraçada por si só, o que no final das contas, é mais do que se pode dizer das piadas que são piadas mesmo. 


    O que eu gostei?

    1º Os episódios são curtos, tem em média 25 minutos, o que é maravilhoso. Existe um pequeno vício no mercado do entretenimento, onde parece que ninguém consegue bolar uma série sem que os episódios tenham 50 minutos.

    Esse é um grande trunfo de Master Of None, e no passado foi um trunfo para Um Maluco no Pedaço, Eu a patroa e as crianças, todo mundo odeia o Chris e muitas outras séries que fizeram muito sucesso. 

    2º A série, tem uma Trilha sonora bem cult e dramática, como se fosse parte real do que eles estão vivendo.

    3º A série tem uma pitada interessante de humor negro. Quase nunca é bem-sucedida, mas quando é, te faz soltar aquela risada gostosa.

    O que eu não gostei?

    1º Os dois protagonistas são bem chatinhos. James apenas reage à Alyssa, e ela, por sua vez, é chata pra cacete. Não há roteiro, trilha, fotografia que sustente uma série quando os protagonistas são “sem-graça”. Na real, isso não significa que a atuação deles é ruim, pelo contrário eu até acho que eles estão ótimos no papel. Era a proposta da história, desde os quadrinhos originais. Os dois personagens são bem caricatos, e isso até fica interessante no final das contas.

    2º  A solução para alguns conflitos é bem bobinha e forçada, isso diminui um pouco o que significa CONFLITO. 

    3º Alex Lawther é o protagonista da série ao lado de Jessica Barden. Ele já participou de um episódio muito bom da terceira temporada de Black Mirror, e pasmem, a série muda, mas a atuação dele é absolutamente a mesma. 

    Conclusão

    The End of F***ing World, é uma série britânica de Humor Negro, com adolescentes pirados, boa música e episódios curtos. A série é de 2017, mas chegou ao Netflix brazilian na sexta-feira (05/01/18).

    A temporada tem 8 episódios e todos são perfeitamente esquecíveis, ou seja, você pode assistir, mas dificilmente vai se lembrar da série daqui há uma semana, isso não significa que a série é simplesmente ruim e ponto final.

    Eu vi a série e sei lá, são três horas mais ou menos, você não vê o tempo passar, dá algumas risadas, tenta gostar dos protagonistas, fica com raiva deles, curte a fotografia que é belíssima e sei lá, se entretêm. É uma boa série para passar tempo. Você vê e beleza, vida que segue.

    Pra resumir, é uma série esquecível, mas um bom passa tempo. Trilha sonora, fotografia e algumas cenas específicas, vão te fazer lutar para não esquece-la, não porque a série em si é maravilhosa, mas porque - se tu é um adolescente ou jovem - seu maior desejo é romper com tudo e fugir, tal como eles fizeram.
    Continue Reading

    Prazer,
    Cozinho em banho Maria
    Um desejo de espanca-la
    Deixa-la em vertigem
    Um murro na tua costela
    Virgem
    Cuja miserável carne carece
    (me parece)
    D’um pulmão perfurado
    Jorrando vinho
    Para que tu vivas a vida real,
    Infeliz!
    Sinto teu sabor apático
    Submissa tal tango em Paris
    Contudo, nada mal.

    Carência é o pecado da carne, irmão
    Você pecando é meu irmão,
    Não?
    Logo te devoro,
    Pecante maldito
    Confesso o incesto
    Somos malditos!
    Sem lástima.
    Não,
    Não é a última, 
    És minha eterna refeição
    Cento e ceio
    Tua alma desprezível
    Carnívoro e insensível
    Entre porcos e vacas 
    Janto com as mãos.


    Autor: Gustavo Pauletto
    Continue Reading


    A Metamorfose, é um dos maiores clássicos da literatura universal. É um livro bastante curto, com uma narrativa direta e objetiva, onde nos é contada a história de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que desperta numa manhã e se encontra metamorfoseado em um inseto gigante.

    A premissa por si só já é bastante curiosa, no entanto, o decorrer da leitura apresenta dezenas de problematizações e críticas embutidas na narrativa. Não é necessário grande domínio intelectual para notar, com o avançar da narrativa, as críticas feitas por Kafka à sociedade, à burguesia, às noções idealizadas de família e até mesmo a outras esferas comuns da vida.
    Kafka em sua narrativa é bastante direto, não perde muito tempo com descrições inúteis, como maravilhoso contista que era, Kafka dispõe a narrativa de uma forma brilhante, começando-a pelo clímax e decorrendo até o fim da história por cerca de 70 páginas.

    O livro não é considerado um clássico da literatura universal atoa. O impacto que a história de Gregor Samsa causa, é inevitável. O livro te coloca para pensar, queira você ou não. Na medida em que você mergulha na história, dezenas de situações cotidianas passam por sua cabeça e você tenta se imaginar lidando com essas situações, tentando identificar também o seu posicionamento moral objetivo. Quero dizer, o livro tenta te distanciar de qualquer hipocrisia e moralismo barato.

    Gregor era o provedor da família há alguns bons anos. Seu pai já não trabalhava, sua mãe era asmática e sua irmã ainda era uma criança. Gregor dava à família uma vida bastante confortável. A casa tinha muitos cômodos e ele pretendia iniciar a irmã em uma escola de música, tendo em vista a paixão da garota por seu violino e a música tocada pela irmã, que aos ouvidos de Gregor era tão prazerosa.

    Gregor aparentemente ganhava muito bem trabalhando como caixeiro-viajante, e na medida do possível, era um bom trabalhador. Não gostava do trabalho, é verdade, mas o exercia sem reclamações e sem corpo mole. Na manhã em que se encontrou metamorfoseado, sofreu o primeiro choque de realidade após sua transformação.

    Quando perdeu o horário do trem para o trabalho, Gregor teve de lidar com a chegada enfurecida do Gerente da firma. Pois é, nos vários anos em que Gregor se dedicara ininterruptamente ao trabalho, sem faltar um dia sequer, jamais havia recebido visita alguma de seu gerente, mas em seu primeiro atraso, o patrão não fez questão de enviar um estagiário ou alguém com cargo inferior, pelo contrário, enviou seu gerente, que não tardou em lançar uma série de acusações e advertências a Gregor.

    Após sua primeira aparição para sua família, todos passam a evita-lo. Sua imagem era deprimente e asquerosa. Ninguém podia suporta-la. No entanto, ainda que com muitas restrições, sua irmã demonstrava certo carinho pelo irmão, mesmo após sua transformação. Ainda levava algum alimento para o pobre Gregor.

    Dentre algum tempo, às coisas vão mudando e daí ao decorrer do livro, nós acompanhamos a depreciação do ser. Encontramos a desvalorização do homem Gregor e a transformação final, agora mediante a ótica de seus familiares, não somente em um inseto, como de fato era, mas em uma coisa, sem valor algum.

    Gregor teve de lidar com o descaso de seus familiares e isso aos poucos o deprimiu. Seu quarto deixou de ser limpo, o alimento se tornou raro e o seu espaço deixou de ser respeitado, tornando-se a morada de Gregor e o cantinho para acumular tralhas inúteis.

    Gregor, enquanto era homem era tido em mais alta estirpe, quando perdeu seu valor de trabalho e por fim de arrecadação de fundos para a família, tornou-se um fardo insuportável, ao ponto de sua querida irmã, que em outrora o ajudou, ser aquela que com pulso firme deliberaria sobre a expulsão do inseto Gregor da casa.

    Enquanto Gregor mantinha a casa, pagava as contas e trabalhava, ele era o filho querido e o irmão amado. Quando perdeu esse potencial, tornou-se inútil.

    Quantas questões podemos deferir a partir disso?

    Seus pais quando envelhecerem e se tornarem inúteis serão descartados à primeira dificuldade?

    O que aconteceria contigo, se por acaso fosse assolado com alguma desgraça, que o impossibilitasse de ser útil as pessoas à sua volta?

    Questões sem fim poderiam ser levantadas através deste maravilhoso clássico.

    Torço por fim, que este brevíssimo ensaio sobre a obra, desperte em você o desejo por conhecer de forma primária a história de Gregor Samsa, e tire por conta própria suas impressões e opiniões acerca dos assuntos debatidos no livro com tanta sabedoria e cuidado.



    A Metamorfose, Franz Kafka.
    Continue Reading
    Newer
    Stories
    Older
    Stories

    About me

    A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, óculos e close-upJúlio Costa | Transgressor

    Confusão. Uma puta confusão.

    Like us on Facebook

    Transgressor

    Follow me

    • Facebook
    • Instagram
    • Youtube
    • Twitter
    • Letterboxd
    • Skoob
    • Pinterest

    More Popular Posts

    • Marco Polo | Viaje para a Mongólia Medieval
    • Lo-Fi | Um Convite a Introspecção
    • Susano Correia | Existência, Fé e Arte
    • Um Pequeno Herói | Fiódor Dostoiévski
    • Tranquility Base Hotel & Casino | Arctic Monkeys

    Labels

    Cinema Contos Desafinando Literatura Series poesia

    Archive

    • julho 2018 (2)
    • junho 2018 (4)
    • maio 2018 (5)
    • abril 2018 (10)
    • março 2018 (8)
    • fevereiro 2018 (7)
    • janeiro 2018 (15)
    • julho 2017 (1)
    • junho 2017 (1)
    • maio 2017 (3)
    • abril 2017 (4)
    • março 2017 (1)
    • fevereiro 2017 (5)
    • setembro 2016 (1)

    Denunciar abuso

    Facebook Instagram Youtube Twitter Pinterest Letterboxd

    Created with by BeautyTemplates - Ambigram Generator.

    Back to top